sábado, 29 de agosto de 2026

Lalau, a inesperada

Hoje pela manhã fiz uma caminhada até o centro para resolver umas pendências. Como levaria pouco mais de uma hora, resolvi ligar para Lalau.

— E aí, mamãe, tudo bem? Me conte uma história.

— Tá certo. Hoje eu conversei com a IA.

💭 (espanto!)

Minha mãe, Dona Laó, até pouco tempo atrás, pertencia àquela categoria de pessoas que, diante de uma novidade tecnológica, perguntavam:

— E isso serve pra quê?

Agora não.

Agora ela conversa com a IA!!

E não conversa pouco, não. Conversa de verdade. Daquele jeito de quem encontra uma pessoa nova e, depois das primeiras formalidades, vai puxando uma história atrás da outra.

Dessa vez, começou pelo meu bisavô. Fulano de tal — não lembro o nome. Mamãe contou que ele havia nascido numa determinada ilha. A IA explicou que a ilha fazia parte do arquipélago dos Açores e, ao que tudo indica, ainda lhe ofereceu alguma informação geográfica adicional.

Mamãe ficou sabendo de coisas que não sabia.

Eu, por minha vez, fiquei sabendo que mamãe estava ficando sabendo de coisas que não sabia.

E pensei:

— Oxe. Essa Lalau tá é mudada!

Eu, fazendo minha caminhada enquanto me abismava com a conversa dela. Sei-quantas ilhas no arquipélago, lá na costa da África, a maior delas etc.

Mamãe, aos quase 95, conversando com uma inteligência artificial sobre meu bisavô, os Açores e as coisas que a família não sabia que sabia.

E eu só ouvindo, de olho arregalado, com um olho no tráfego e outro na conversa, imaginando:

Lalau tá ligada no modo avançado.

Foi então que me veio uma vontade quase infantil:

— Mamãe, me conte uma história normal. Da senhora fazendo tricô na cadeira de balanço, olhando o movimento da sua rua, por favor.

Mas já era tarde.

Aquela Lalau ficou para trás.

Agora existe uma Lalau que pergunta, pesquisa, descobre e volta para contar o que descobriu.

Daqui a pouco ela vai começar a me cobrar.

— Marcos, te atualiza! Daqui uns dias vais ficar pra trás.

— Mamãe, como é que a senhora me diz uma coisa dessas?

— Meu filho, isso não é do outro mundo. É muito fácil, na verdade.

💭 (espanto!)

Porque eu conheço esse tom.

É o tom de quem acabou de descobrir uma coisa e, em vez de ficar deslumbrado, já incorporou a novidade ao cotidiano.

É o tom de quem, cinco minutos depois de aprender alguma coisa, já acha que aquilo sempre foi óbvio.

E eu começo a imaginar o futuro.

Talvez eu chegue ao aniversário dela levando, todo orgulhoso, meu exemplar de Laó e suas memórias.

Talvez eu pense que estou levando um presente especial.

Talvez eu entre na sala e encontre um exemplar em cada mesa.

E, ao lado de cada livro, uma cumbuquinha.

De cocada de castanhas de caju.

Porque já aconteceu coisa parecida.

Eu cheguei uma vez com os cajus.

E Lalau já tinha as cocadas prontas.

Talvez seja esse o segredo dela.

A gente chega achando que está trazendo uma novidade e ela já transformou a novidade em alguma coisa.

A gente traz o caju.

Ela faz a cocada.

A gente leva o livro.

Ela publica.

A gente apresenta a IA.

Ela começa a ensinar a gente a usar.

E eu fico pensando:

quem há de parar Lalau?

Talvez ninguém.

E talvez nem seja para parar.

Porque, no fundo, eu acho bonito.

A senhora da cadeira de balanço continua lá.

O tricô continua nas mãos.

A rua continua passando diante dos olhos.

Só que agora existe uma janelinha a mais.

E Lalau, que sempre gostou de conversar, descobriu que do outro lado dessa janela tem alguém que responde.

Então pronto.

Conversa com ela.

Pergunta.

Descobre.

Lembra.

Esquece.

Pergunta de novo.

E, se eu bobear, daqui a pouco liga pra mim:

— Marcos?

— Oi, mamãe.

— Tu sabes quem foi teu trisavô?

— Não, mamãe.

— Pois eu sei.

E então talvez aconteça o impensável.

Eu chegue à casa dela e encontre Dona Laó na cadeira de balanço, com o tricô no colo.

A cena que eu queria.

A nossa velha Lalau de cada dia:

A rua passando diante dos olhos.

O movimento de sempre.

Só que agora haverá um celular apoiado ao lado dela.

Ela vai olhar para mim e dizer:

— Meu filho, senta aí.

— Pra quê?

— Quero te mostrar uma coisa que a IA me disse sobre o teu bisavô.

E eu vou me sentar.

Porque, no fundo, talvez essa seja a melhor parte de tudo.

A cadeira de balanço continua no mesmo lugar.

A rua continua passando.

O tricô continua crescendo entre os dedos.

Só que o mundo, para Lalau, ficou maior.

E talvez seja justamente por isso que ela tenha ficado tão inesperada.

Porque a velhice, às vezes, não fecha portas.

Às vezes, abre uma janela.

E, pela janela, Dona Laó descobriu que havia uma conversa acontecendo do outro lado.

E entrou nela.

Sem cerimônia.

Como quem diz:

— Tá certo. Hoje eu conversei com a IA.

💭

(e eu, gente, conversei com Lalau!)


Texto organizado com suporte de IA após uma "conversa" com ela sobre essa caminhada e o teor da conversa com Dona Laó.

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