segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Músicas que contam minha história de amor

Seir,

hoje faz treze anos.

Treze anos desde aquele dia em que nós dois, já não exatamente adolescentes — embora eu ainda tenha lá minhas dúvidas quanto a mim —, resolvemos dizer diante de Deus e de todo mundo que queríamos andar juntos pela vida.

E há uma coisa daquele casamento que hoje me parece ainda mais bonita do que me parecia naquele dia: nós escolhemos tudo.

A dedo.

Não foi alguém que sugeriu uma música bonita para a entrada da noiva. Não foi o pessoal da igreja que montou uma sequência tradicional. Não foi um cerimonialista que apareceu com uma pastinha dizendo: “Essa aqui fica linda nessa hora”.

Não.

Fomos nós.

João e Seir.

Escolhemos cada música, cada momento, cada passagem.

Mas há uma coisa curiosa: embora as músicas fossem escolhas nossas, a história que elas contavam apontava para Deus.

E hoje, treze anos depois, quando olho para aquela cerimônia, percebo que as músicas não foram apenas músicas.

Elas contaram a nossa história.

A primeira foi “Bem Vindo”.

E já aí havia uma coisa bonita: não era uma música para nos receber.

Era para receber Deus.

“Tu és bem-vindo ao nosso meio.”

A cerimônia começou assim.

Antes de João. Antes de Seir. Antes do casamento. Antes de qualquer declaração de amor.

Deus.

Como quem dissesse: “Pronto. Estamos aqui. Agora venha o Senhor estar conosco.”

E então entrou Jônathas, cantando “Hino ao Amor”.

Para mim.

O filho da mulher com quem eu estava me casando cantando para o homem que entrava para se casar com a mãe dele.

E a música não dizia simplesmente que o amor era bonito.

Pedia que o amor crescesse, que ultrapassasse o coração, que fosse mais do que emoção, que falasse de esperança mesmo quando tudo sugerisse que não.

E então veio aquela frase que talvez tenha passado depressa demais para quem estava ouvindo:

“Cada qual seu amor no amor de Cristo,
pra que os três venham a ser somente um.”

Olha só.

Não era simplesmente João e Seir.

Era João, Seir e Cristo.

Não como uma fórmula decorativa para casamento cristão.

Como o centro.

Como o ponto para onde os dois amores deveriam convergir.

Depois veio a sua entrada.

E quem cantou foi Gabriela.

Minha filha.

Ela cantou “How Great Is Our God”.

Hoje, quando penso nisso, acho que entendo melhor o que estava acontecendo.

Você não estava simplesmente entrando.

Você estava testemunhando.

Depois de tudo o que a vida tinha sido, depois de tudo o que você havia atravessado, depois dos caminhos que trouxeram você até aquele momento, você queria que aquelas pessoas soubessem uma coisa:

How great is our God.

Como é grande o nosso Deus.

Não era apenas a entrada da noiva.

Era um testemunho.

E houve ainda um momento que não poderia faltar naquela história: a apresentação da noiva à matriarca.

Você foi apresentada à minha mãe.

Àquela que, para mim, não era apenas mãe, mas a grande memória viva da nossa família.

E hoje eu penso que havia ali uma espécie de passagem de bastão.

Você, chegando à nossa família.

Ela, recebendo você.

E eu, no meio das duas, provavelmente sem fazer ideia da quantidade de história que ainda haveria pela frente.

E então, depois da sua entrada, vieram Jônathas e Hadassa.

“Essência de Deus”.

E foi como se a cerimônia, depois de apresentar os dois que estavam se casando, parasse por um instante para olhar novamente para Aquele que estava no centro de tudo.

Não era mais apenas a história de João e Seir.

Era a história de Deus no meio dela.

E então veio “Tu És Fiel, Senhor”.

Todos.

A comunidade inteira.

E isso também é bonito quando se olha para trás.

Porque nós dois não estávamos ali sozinhos.

Havia gente que nos amava, que nos conhecia, que orava por nós, que compartilhava aquele momento.

E todos juntos cantando sobre a fidelidade de Deus.

Depois disso, veio a nossa música.

“Lado a Lado”.

E essa talvez seja a música que mais me faz olhar para trás hoje.

Porque ela fala de reconhecer Deus quando se olha para o passado.

De perceber sua mão sustentando aquilo que foi sonhado.

De perceber, nas cores do passado, aquilo que talvez só muito depois tenha ficado claro.

“Foi a tua mão
que sustentou o sonho acalentado...”

Nós havíamos escolhido aquela música.

Mas o que estávamos cantando era justamente isto: quando olhávamos para trás, reconhecíamos a mão de Deus na nossa história.

E então vinha a frase que, treze anos depois, ganhou um peso que naquele dia nós ainda não poderíamos conhecer:

“Que nos separou
nos preparou pra andarmos lado a lado.”

Hoje eu penso nisso e fico impressionado.

Porque naquele dia nós estávamos começando.

Hoje nós sabemos um pouco mais do que significa continuar.

E a música terminava colocando diante de Deus aquilo que éramos e aquilo que ainda seríamos:

“O que somos e seremos,
para o teu louvor.”

O “seremos” daquele dia era enorme.

Hoje ele já tem rosto.

Tem memória.

Tem cicatriz.

Tem gargalhada.

Tem cotidiano.

Tem história.

Tem nós dois.

Depois veio a palavra do celebrante.

E foi aí que duas histórias bíblicas se encontraram na nossa história.

Primeiro, Caná da Galileia.

Ele falou do vinho que havia acabado.

E falou do simbolismo do vinho naquele casamento: a alegria.

Porque casamento também é isso: alegria compartilhada, celebração, festa.

Mas o vinho pode acabar.

A alegria pode diminuir.

O que era abundante pode parecer insuficiente.

E foi então que ele nos lembrou de Cristo.

Quando falta o vinho, Cristo pode trazê-lo de volta.

Depois, ele nos levou a Cantares.

E ali apareceu outra imagem que nunca mais saiu da minha cabeça:

o fim do inverno.

O inverno havia passado.

E nós estávamos nos casando justamente ali, no seu fim.

O celebrante nos mostrou que o casamento podia ser também isso:

colocar fim ao inverno e ir ao encontro da primavera.

E eu acho que naquele dia nós nem imaginávamos o quanto aquela imagem seria apropriada para nós.

Porque nós não estávamos apenas nos casando.

Estávamos saindo de um inverno.

E indo juntos para a primavera.

Depois da pregação veio a bênção das alianças.

E então chegamos a “Sublime Amor”.

E aqui, Seir, eu preciso confessar uma pequena intervenção do compositor João.

A letra dizia:

“Da mesma maneira, querida...”

Mas eu não cantei “querida”.

Eu cantei:

“Da mesma maneira, Seir, eu...”

kkkkkkkkkkkkkkkk

Porque, convenhamos, se era para eu cantar aquilo olhando para você, por que cargas d'água eu haveria de cantar “querida”?

Naquele instante, a música deixou de ser apenas uma música.

Era eu falando com você.

Seir, eu quero me entregar.

E então nós cantamos que o nosso amor vinha do Senhor. Que queríamos lembrar disso em cada instante.

E o refrão repetia aquele “Aleluia, Te amo, Glória a Deus”.

Simples.

Quase desarmado.

Depois de tanta coisa, tanta espera, tanta história, tanta elaboração...

Aleluia.

E, quando parecia que tudo já tinha sido dito, veio “Em Seu Nome”.

Eliab cantando.

A música trouxe de volta a comunidade.

A igreja.

A oração.

A promessa de que, onde dois ou três estivessem reunidos em nome de Jesus, Deus estaria ali.

Nós cantamos para Ele.

Pedimos que recebesse aquele cântico.

E terminamos proclamando:

“O teu imenso amor nos alcançou!”

*(Agora, Seir, deixa eu fazer uma coisa que naquele dia eu não poderia fazer. Deixa eu voltar às músicas, uma por uma, mas desta vez olhando para elas daqui de hoje.

Porque acho que só agora consigo perceber que elas não estavam apenas em sequência.

Elas estavam conversando.

“Bem Vindo” começa recebendo Deus entre nós. É como se dissesse: antes de qualquer coisa, Ele está aqui.

E “Hino ao Amor” parece responder: se Ele está aqui, então nosso amor não pode encontrar em si mesmo o seu ponto final. Ele precisa encontrar em Cristo o seu alvo comum.

Então entra você, e Gabriela canta que grande é o nosso Deus. Como se a resposta àquela primeira oração fosse um testemunho: sim, o Deus que recebemos é grande.

“Essência de Deus” aprofunda o olhar. Já não estamos apenas dizendo que Deus é grande; estamos contemplando quem Ele é.

E “Tu És Fiel, Senhor” vem como resposta da comunidade: o Deus que está conosco, o Deus a quem o amor se dirige, o Deus cuja grandeza contemplamos, é fiel.

Então chegamos a “Lado a Lado”.

E aí tudo aquilo deixa de ser apenas teologia e entra na nossa história.

Se Deus é fiel, podemos olhar para trás.

Podemos reconhecer sua mão.

Podemos perceber cores que talvez não enxergássemos naquele momento.

Podemos dizer que aquilo que nos separou também nos preparou.

E podemos andar juntos.

Lado a lado.

Então o celebrante nos leva a Caná.

E descobrimos que até o vinho da alegria pode acabar — mas que Cristo pode trazê-lo de volta.

E nos leva a Cantares.

E descobrimos que o inverno passa.

Que há uma primavera depois dele.

Que é possível sair de um tempo de frio e caminhar para outro tempo.

E nós, justamente naquele dia, estávamos fazendo isso.

Depois vem “Sublime Amor”.

E agora a resposta já não é apenas “Deus está aqui”, nem “Cristo é o centro”, nem “Deus é grande”, nem “Deus é fiel”, nem “o inverno passou”.

Agora a resposta é pessoal.

Eu me entrego.

Eu, João.

A você, Seir.

Mas sem esquecer que o nosso amor vem do Senhor.

E então “Em Seu Nome” abre tudo outra vez.

O que começou entre dois agora volta para todos.

A oração volta.

A comunidade volta.

Deus volta a ser invocado.

E a história inteira desemboca naquela frase:

“O teu imenso amor nos alcançou.”

Talvez seja por isso que hoje eu veja aquelas músicas como uma única história.

Uma deixando uma frase para a seguinte.

Uma completando a outra.

Como se, sem que nós soubéssemos, cada música já estivesse preparando a próxima.

E como se todas, juntas, estivessem dizendo uma coisa só:

Deus esteve aqui.
Deus foi fiel.
O amor nasceu.
O inverno passou.
A primavera começou.
E nós fomos chamados a andar juntos.

Fecho o parêntesis.)*

E então aconteceu uma das coisas mais bonitas daquela cerimônia.

O último acorde do “alcançou” já era, ao mesmo tempo, o começo de outra coisa.

No próprio acorde de “alcançou” começou “Pompa e Circunstância”.

O acorde ainda estava no ar...

e a marcha começou.

Eu acho isso maravilhoso.

Porque, de certo modo, a cerimônia terminou dizendo:

O amor de Deus nos alcançou.

E a música seguinte respondeu:

Então vamos.

kkkkkkkkkk

Era quase como se Deus tivesse dito:

“Pronto. Agora chega de ficar aqui dentro. Vão viver.”

E nós fomos.

E eu fiz o que, naquele momento, parecia ser a coisa mais natural do mundo:

peguei você nos braços.

Depois de tudo aquilo — depois da música, da oração, das promessas, dos testemunhos, do “Lado a Lado”, do “Sublime Amor”, do “Em Seu Nome” — eu finalmente podia anunciar, em meu próprio idioma:

“Agora sim, posso levar pra casa.”

😂

E levei.

Treze anos depois, Seir, continuo levando.

Só que agora nós sabemos uma coisa que naquele dia ainda não sabíamos:

a primavera não era um lugar aonde chegaríamos.

Era o caminho que começava naquele dia.

Vieram os dias que nós imaginávamos e outros que jamais teríamos imaginado. Vieram alegrias, preocupações, família, mudanças, histórias, pequenas coisas do cotidiano, risadas, silêncios, conversas, músicas, orações.

Veio a vida.

A vida de verdade.

Treze anos.

E ainda estamos indo.

Lado a lado.

E talvez seja esse o nosso maior “felizes para sempre”.

Não porque chegamos ao fim da história.

Mas porque ainda estamos escrevendo.

Juntos.

Lado a lado.

E, se Deus permitir,

ainda por muito, muito tempo.

Feliz nosso 13º aniversário, Seir.

Eu escolheria você outra vez.

E, se me deixassem escolher as músicas...

eu escolheria as mesmas.

Só que agora eu cantaria cada uma delas sabendo um pouco mais do que elas queriam dizer.

E naquela parte...

“Da mesma maneira, querida...”

eu continuaria cantando:

“Seir, eu...”

❤️



terça-feira, 15 de setembro de 2026

A história revista e atualizada

 A caminhada dos 60

Decidi fazer uma caminhada para deixar pra trás os 59 anos que se passaram. Cada passo à frente, eu avançava em direção à nova década que se me abriria em menos de 24 horas. Não que eu quisesse antecipar a data, mas a verdade é que ninguém anda em direção ao passado, portanto lá fui eu, todo ancho, caminhando em direção ao sexagenarismo no final da tardinha.


Tão logo pus o pé na rua pensei: “Por que não ligar para mamãe?”. Liguei.

— É você, apressadinho?

Ri-me. Mamãe perde um amigo, mas não perde a piada.

— Oi, mamãe. Liguei para não correr o risco dos primeiros parabéns não serem da senhora!

— Era pra você ter nascido hoje!

Opa, pensei, lá vem história. Quis me sentar pra ouvir atentamente, mas não era para tanto. Mamãe me desfiou o rosário em pouco mais de uma hora de conversa.

14 de setembro de 1966. Pelas contas [de não sei quem, esse detalhe da conversa, meu cérebro talvez tenha se recusado a gravar], seria o dia. E nada da criança querer nascer.

Foi então que, experiente em ter filhos, mamãe resolveu dar uma ajuda à natureza: pegou duas latas, uma cheia de água e outra com água e sabão, três panos de chão e foi limpar a casa.

Era uma casa grande, com mosaicos no chão.

Contou-me ela que, sentada ao chão, fez a lavagem de mosaico em mosaico. O pano da água de sabão vinha primeiro. Em seguida, ela o torcia e colocava de volta na lata apropriada. Depois, com o pano da lata de água sem mistura, retirava o excesso da água de sabão que havia ficado. Com o terceiro pano, ela enxugava o mosaico. E foi assim que todos os mosaicos da casa foram limpos porque, eu na barriga estava e na barriga continuei. Pelo jeito [hoje eu tenho certeza!] estava muito bom lá dentro. Ela me disse que deveria estar muito quentinho lá dentro, por isso eu não quis sair. Possa ser.

Fato é que ela tentou cutucar a onça com vara curta, mas não deu certo hahaha! Calma, Dona Laó, ainda não chegou a sua hora. Nem a minha. Outro fato interessante: cheguei sob a égide da limpeza! Hmmm... agora entendo um pouco mais sobre minha mania de limpeza. Não, gente, não é TOC. É genética mesmo. O homem é produto do meio. Tudo já estava escrito nas estrelas. Ou nos mosaicos. Faça sua escolha.

A tarde chegou e nada aconteceu. Mamãe resignou-se a esperar mais um pouco. Talvez acontecesse à noite? As contas estariam erradas? A natureza não entendeu os sinais que ela dera no esforço de limpar a casa? Perguntas que seriam respondidas em menos de 24 horas.

Raiou a manhã do dia 15. Um dia lindo, de sol. Muitos raios de sol.

A primeira contração aconteceu cedo, por volta das 9h. Aquela marinheira de várias — três, na verdade — viagens, entendeu o que estava acontecendo. Aguardou mais algumas contrações antes de anunciar a papai. Veio a segunda. Ela marcou o tempo pra calcular a hora de mandar chamar Dona Belarmina, a parteira da vila. A terceira contração chegou mais rápido que o intervalo anterior. Isso acendeu um alerta: “Opa, opa, opa! É já que essa criança nasce.” A quarta contração demorou a chegar. “Minha gente!” Depois de algum tempo, veio. Então vieram outras, em frequências e intensidades diferentes.

Mamãe ficou um tanto confusa. Nas três gravidezes anteriores ela havia tido contrações com frequência decrescente. Ela me explicou como eram. Na minha cabeça a segunda contração dos nascimentos das meninas viera 20 minutos após a primeira. A terceira, 19 minutos após. A quarta, 18. E por aí foi. É assim que imagino que a coisa acontece, na minha cabeça cartesiana: intervalos regularmente decrescentes entre as contrações. Mas no meu nascimento foi diferente. Ah, beeem diferente! (Hmmm... agora algumas coisas fazem mais sentido para mim.) Bom, voltemos às contrações. Ora vinha, ora não vinha. Era eu, lá dentro: não sei se vou, não sei se fico. Quero ir, mas aqui tá tranquilo.

— Darling, estou tendo contrações. Ainda é cedo e Dona Belarmina tem filhos pequenos. Essa hora ela deve estar preparando o almoço das crianças. Então mais tarde você vai chamá-la, está certo?

Mal mamãe deu as costas pra se ocupar, lá foi papai, em busca da parteira. Mamãe só viu o vulto já dobrando a esquina da Federal. Naqueles idos, haviam poucas casas e dava-se para perceber a movimentação das pessoas aos lugares onde iam. A Federal era o nome de uma estrada que cortava a cidade. Era para as bandas de onde ela seguia que Dona Belarmina morava.

Aqui preciso abrir um parêntesis para contar que, ao ouvir mamãe falar sobre a regularidade das contrações, ela usou como exemplo o que aconteceu no nascimento de Quel. Foi muito complicado. Quando chegou o tempo dela nascer, papai foi buscar Dindinha (a avó de mamãe) para fazer mais aquele parto. Dindinha morava em Recife, bem longe — ainda mais naqueles tempos — de Rodeador, onde moravam. A bolsa se rompeu durante a viagem de papai e, até que ele chegasse com Dindinha, já haviam se passado 24 horas, por aí. Foi um parto muito difícil e quase que as duas foram ver Deus antes da hora! Mas, no final das contas, acabou que deu certo.

Fecho o parêntesis.

— Mamãe, acho que esse desespero de papai deve ter sido um reflexo do nascimento de Quel. Na hora que a senhorinha falou para ele que estava tendo contrações, um filme inteiro deve ter passado na mente dele.

Mamãe concordou. Ela nunca havia pensado sobre isso. Papai passou 60 anos sendo “o desesperado”. Haha! Descansa em paz, papai. Você só era um homem cauteloso.

Quando papai chegou com Dona Belarmina, mamãe estava saindo do banho.

— Ah, Dona Laodice, pensei que iria encontrá-la na cama...

— Não. Ainda estou tendo contrações. Mas elas estão muito irregulares. Já arrumei a cama do jeito que a minha avó fazia.

Foram conferir.

— Ah, sim. Eu também gosto que arrume assim.

Eu:

— Assim como, mamãe?

— A cama forrada com um lençol limpo e esticado, e mais três lençóis limpos do lado para quando Dindinha precisasse.

— Hmmm... tá. Continue.

Após verificação “da sala de parto”, Dona Belarmina quis examinar mamãe.

— Ah, Dona Laodice, só vai nascer lá pelas duas da tarde!

(Ah, tá... — eu, lá dentro — Vai pensando que sabe das coisas, viu?)

Não demorou muito, e antes de ela sair para cuidar do almoço das suas crianças, mamãe teve outra contração. Opa, opa, opa! Dona Belarmina resolveu aguardar. E foi ficando.

Aqui e ali, papai aparecia para ver como a coisa evoluía.

A manhã já estava acabando e papai foi, então, preparar o almoço das meninas.

— E ele sabia cozinhar, mamãe?

— Sabia. Ele não cozinhava, mas sabia fazer uma comida boa. Ele sabia fazer um lombo...

— Ulha!! Papai mestre-cuca. Quem diria. — Lembrei-me que ele fazia pão.

Contrações vinham, contrações iam. As duas lá, esperando ver o que acontecia.

11h20. Papai, achando que estava tudo muito silencioso, deu as caras:

— E aí?

Dona Belarmina foi fazer um último exame de toque. Mas não com a mão, e sim com a ponta da tesoura. Ah, malvada!

Com muito cuidado, rompeu a bolsa. Bem nesse momento, papai havia chegado:

— E aí?

Aí ele foi ajudar Dona Belarmina, que estava sozinha, pois já tinha experiência de haver participado do nascimento de Quel.

11h30 eu nasci. Aquela história do raio de sol e tudo mais, que já contei antes. Mas nasci com a mão fechada (hmmm... olhaí) levando-a à boca, como quem está com fome (hmmmmmm... eu sabia!).

— Esse menino nasceu na hora do almoço e já com fome! — exclamou mamãe. Na verdade, ela, tal qual Pedro diante da transfiguração, estava embevecida e não sabia direito o que falar, mas falou lá qualquer coisa. Hahaha!

Eu estava era querendo acertar a venta de Dona Belarmina, que havia apressado a minha hora.

Enfim, assim nasci.

Mamãe ainda me contou que Dona Dina, a vizinha, desconfiou que ela estava tendo neném porque mamãe passou a gravidez toda cantando (hmmm... eis aí o porquê de a música estar tão presente em mim) e, subitamente, ela parou de cantar naquela manhã.

Pronto. Foi bem assim que tudo aconteceu.

Ouvido, lido, revisado e registrado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O primeiro choque de realidade

Lalau tinha oito anos.

Era uma menina franzina, alegre, esperta, conversadeira, animada e simpática. E, sobretudo, era crédula. Confiava nas pessoas.

Um dia, estava com uma inflamação na garganta — laringite, talvez. Coisa de criança. Levaram-na ao médico. Não sei quem a levou; ela nunca me contou.

Era a década de 1930, no interior de Pernambuco. Naquele tempo havia uma verdadeira febre de se operar as amígdalas das crianças.

Lalau era a primeira paciente do dia.

Foi amarrada a uma cadeira. A enfermeira segurou-lhe a mão. Ela não achou aquilo estranho. Por que acharia? Era uma menina que confiava nas pessoas.

O médico chegou.

— Abra a boca, Laó.

Ela abriu.

ZAZ!

Num golpe rápido e certeiro, o médico enfiou um instrumento estranho — algo que, muitos anos depois, Lalau descreveu como parecido com aquelas antigas máquinas de cortar cabelo de homem — e...

CLACK!

Decepou uma das amígdalas.

Doeu.

Não foi a maior dor da vida dela, mas doeu. E, sobretudo, ela se sentiu traída.

Não tinha ido ali para aquilo.

O médico olhou para o que havia acabado de arrancar e comentou:

— Mas que droga! Nunca arranquei uma amígdala tão pequena.

Havia ainda a outra.

Lalau, franzina, mas não burra, entendeu perfeitamente o que deveria fazer.

Fechar a boca.

Os olhos, certamente, estavam marejados.

— Abra a boca, Laó.

Ela, de boca cerrada, balançava a cabeça que não.

— Precisa operar a outra amígdala.

A cabeça continuava dizendo que não.

— Abra a boca, Laó.

Não haveria boca aberta.

Lá fora, outras crianças aguardavam sua vez de serem operadas. O médico começava a ficar impaciente. A enfermeira tentava fazê-la abrir a boca.

Até que, de repente, a cena mudou.

O médico ficou terno e bom. Suspendeu a insistência e, resignado, perguntou com voz cordata:

— Está bem. Você não quer que a outra amígdala seja operada, não é?

O meneio da cabeça confirmou aquele jamais infantil.

O médico então sorriu, ou pelo menos foi essa a impressão que passou.

— Então, antes de você ir embora, preciso só abaixar sua língua, está bem?

Diante de uma explicação tão doce e benfazeja, mamãe abriu a boca.

ZAZ!


CLACK!

E foi assim que Lalau voltou para casa sem as amígdalas.

Sem anestesia.

Nem mesmo uma pastilha de menta para aliviar a dor ou o susto.

Anos depois, quando mamãe me contou essa história, eu fiquei boquiaberto e penalizado.

Ela, porém, contava tudo com a melhor das vozes, como se aquilo tivesse acontecido do outro lado do planeta, com outra menina qualquer.

Mas não.

Era ela.

Uma menina de oito anos, franzina, alegre, crédula e esperta, que naquele dia descobriu uma coisa que ainda não sabia:

o mundo podia ser mau.

E talvez tenha sido esse o seu primeiro choque de realidade.

sábado, 29 de agosto de 2026

Lalau, a inesperada

Hoje pela manhã fiz uma caminhada até o centro para resolver umas pendências. Como levaria pouco mais de uma hora, resolvi ligar para Lalau.

— E aí, mamãe, tudo bem? Me conte uma história.

— Tá certo. Hoje eu conversei com a IA.

💭 (espanto!)

Minha mãe, Dona Laó, até pouco tempo atrás, pertencia àquela categoria de pessoas que, diante de uma novidade tecnológica, perguntavam:

— E isso serve pra quê?

Agora não.

Agora ela conversa com a IA!!

E não conversa pouco, não. Conversa de verdade. Daquele jeito de quem encontra uma pessoa nova e, depois das primeiras formalidades, vai puxando uma história atrás da outra.

Dessa vez, começou pelo meu bisavô. Fulano de tal — não lembro o nome. Mamãe contou que ele havia nascido numa determinada ilha. A IA explicou que a ilha fazia parte do arquipélago dos Açores e, ao que tudo indica, ainda lhe ofereceu alguma informação geográfica adicional.

Mamãe ficou sabendo de coisas que não sabia.

Eu, por minha vez, fiquei sabendo que mamãe estava ficando sabendo de coisas que não sabia.

E pensei:

— Oxe. Essa Lalau tá é mudada!

Eu, fazendo minha caminhada enquanto me abismava com a conversa dela. Sei-quantas ilhas no arquipélago, lá na costa da África, a maior delas etc.

Mamãe, aos quase 95, conversando com uma inteligência artificial sobre meu bisavô, os Açores e as coisas que a família não sabia que sabia.

E eu só ouvindo, de olho arregalado, com um olho no tráfego e outro na conversa, imaginando:

Lalau tá ligada no modo avançado.

Foi então que me veio uma vontade quase infantil:

— Mamãe, me conte uma história normal. Da senhora fazendo tricô na cadeira de balanço, olhando o movimento da sua rua, por favor.

Mas já era tarde.

Aquela Lalau ficou para trás.

Agora existe uma Lalau que pergunta, pesquisa, descobre e volta para contar o que descobriu.

Daqui a pouco ela vai começar a me cobrar.

— Marcos, te atualiza! Daqui uns dias vais ficar pra trás.

— Mamãe, como é que a senhora me diz uma coisa dessas?

— Meu filho, isso não é do outro mundo. É muito fácil, na verdade.

💭 (espanto!)

Porque eu conheço esse tom.

É o tom de quem acabou de descobrir uma coisa e, em vez de ficar deslumbrado, já incorporou a novidade ao cotidiano.

É o tom de quem, cinco minutos depois de aprender alguma coisa, já acha que aquilo sempre foi óbvio.

E eu começo a imaginar o futuro.

Talvez eu chegue ao aniversário dela levando, todo orgulhoso, meu exemplar de Laó e suas memórias.

Talvez eu pense que estou levando um presente especial.

Talvez eu entre na sala e encontre um exemplar em cada mesa.

E, ao lado de cada livro, uma cumbuquinha.

De cocada de castanhas de caju.

Porque já aconteceu coisa parecida.

Eu cheguei uma vez com os cajus.

E Lalau já tinha as cocadas prontas.

Talvez seja esse o segredo dela.

A gente chega achando que está trazendo uma novidade e ela já transformou a novidade em alguma coisa.

A gente traz o caju.

Ela faz a cocada.

A gente leva o livro.

Ela publica.

A gente apresenta a IA.

Ela começa a ensinar a gente a usar.

E eu fico pensando:

quem há de parar Lalau?

Talvez ninguém.

E talvez nem seja para parar.

Porque, no fundo, eu acho bonito.

A senhora da cadeira de balanço continua lá.

O tricô continua nas mãos.

A rua continua passando diante dos olhos.

Só que agora existe uma janelinha a mais.

E Lalau, que sempre gostou de conversar, descobriu que do outro lado dessa janela tem alguém que responde.

Então pronto.

Conversa com ela.

Pergunta.

Descobre.

Lembra.

Esquece.

Pergunta de novo.

E, se eu bobear, daqui a pouco liga pra mim:

— Marcos?

— Oi, mamãe.

— Tu sabes quem foi teu trisavô?

— Não, mamãe.

— Pois eu sei.

E então talvez aconteça o impensável.

Eu chegue à casa dela e encontre Dona Laó na cadeira de balanço, com o tricô no colo.

A cena que eu queria.

A nossa velha Lalau de cada dia:

A rua passando diante dos olhos.

O movimento de sempre.

Só que agora haverá um celular apoiado ao lado dela.

Ela vai olhar para mim e dizer:

— Meu filho, senta aí.

— Pra quê?

— Quero te mostrar uma coisa que a IA me disse sobre o teu bisavô.

E eu vou me sentar.

Porque, no fundo, talvez essa seja a melhor parte de tudo.

A cadeira de balanço continua no mesmo lugar.

A rua continua passando.

O tricô continua crescendo entre os dedos.

Só que o mundo, para Lalau, ficou maior.

E talvez seja justamente por isso que ela tenha ficado tão inesperada.

Porque a velhice, às vezes, não fecha portas.

Às vezes, abre uma janela.

E, pela janela, Dona Laó descobriu que havia uma conversa acontecendo do outro lado.

E entrou nela.

Sem cerimônia.

Como quem diz:

— Tá certo. Hoje eu conversei com a IA.

💭

(e eu, gente, conversei com Lalau!)


Texto organizado com suporte de IA após uma "conversa" com ela sobre essa caminhada e o teor da conversa com Dona Laó.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A cirurgia do espelho

Eu fui um menino complexado.

Era um pouco estrábico, mas me enxergava o próprio zanôio. “Zanôio” era como chamávamos, na minha infância, os zarolhos. E havia o bulis, que vinha junto.

Desde cedo usei óculos. Os primeiros, que papai mandou fazer na Ótica Pérola, em Garanhuns, pareciam um observatório espacial. Eram enormes.

Mas aqueles óculos enormes eram, de certa forma, o meu refúgio. As lentes faziam meus olhos parecerem alinhados e, de óculos, quase não se percebia o estrabismo.

Eu me sentia protegido atrás deles.

agosto/1983
Quando os tirava, não olhava ninguém de frente. Olhava de soslaio, de esgueiro. Nunca encarava ninguém.

Eu me sentia o feio.

Não me lembro de quando esse sentimento começou. Só sei que cheguei à adolescência com ele. E entrei no mercado de trabalho carregando-o comigo.

Até que, entre os dezessete e os dezenove anos, aconteceu uma coisa.

Depois do banho, afastei a cortina para pegar a toalha.

Foi quando, sem planejar, vi meu rosto refletido no espelho do armarinho que havia no banheiro.

Sem os óculos.

De frente.

Cara a cara.

Não estava esperando ver o que vi.

Sim, eu era zanôio.

Uma tristeza enorme invadiu meu ser.

Então é isso... eu sou zanôio mesmo.

Puxa... não é sem razão que eu não tenho olhado ninguém de frente.

Está aí a razão.

Fiquei um tempo ali, diante daquele espelho.

Depois, respirei fundo.

Bem fundo.

A tristeza foi assentando, como a poeira de um terreiro que alguém tenta varrer com vassoura de palha num dia de muito vento. Até a poeira baixar, vai um queijo e uma rapadura inteira.

Então pensei:

Bem. Esse aí sou eu. Eu sou assim mesmo.

Foi só isso.

Não houve milagre. Não houve transformação do rosto.

Houve apenas o reconhecimento.

Eu me enxerguei como era.

E, aos poucos, a dor foi embora.

Aos poucos, corrigi o olhar.

Aprendi a encarar as pessoas de frente.

Daí a encarar o mundo de frente foi um pulo.

Não demorou muito, mandei fazer lentes de contato.

Foi uma experiência e tanto. Sem aquele observatório espacial na cara, eu me sentia livre. Era como se dissesse ao mundo:

Oi, liberdade! Aqui estou eu!

As lentes eram muito legais. Mas havia um problema: aquele negócio de ficar pondo e tirando do olho cansa.

Se cai um cisco, é um Deus nos acuda.

Acordou? Tem que ir ao banheiro, lavar o rosto, lavar as mãos, tirar as lentes, lavar as lentes...

Cansei.

Os óculos são muito mais práticos.

Cansou? Tira.

Acordou? Põe.

Pronto.

Depois fiz cirurgia de miopia e passei um tempo sem óculos.

Mas minha miopia era muito apegada a mim e não aceitou aquele bota-fora como definitivo.

Voltou.

Hoje uso óculos outra vez. Meu grau é pequeno. Sobrevivo muito bem sem eles, mas acostumei-me.

E gosto deles.

São apenas óculos.

Não são mais esconderijo.

Não são mais refúgio.

Não preciso deles para olhar ninguém de frente.

Na verdade, isso já estava resolvido fazia muito tempo.

Tudo começou naquele banheiro, quando eu afastei uma cortina para pegar uma toalha e, sem querer, encontrei um espelho.

E encontrei a mim mesmo.

De frente.


Ideias organizadas com suporte de IA e rigorosamente revisadas por mim. Conteúdo e voz autoral estritamente meus.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Manhã

 

Manhã chegou trazendo esperança

Consigo trouxe o brilho do despertar

Vou acreditar.
Acreditar na esperança da continuidade.

Respiro seu ar gelado
Que me enche os pulmões.

Oxigênio para o cérebro.

Bombeia este sangue, coração!

Acorda, acorda, acorda...
Vive, vive, vive.
Bate sem parar.

Segue num ritmo acelerado,
Num crescendo de emoções.

Recomeçar, eu quero recomeçar.

Viver, amar, ACORDAR!

Dedico essa poesia ao meu irmão João.


Recebi este poema de minha irmã caçula, Mélis, em 26 de outubro de 2011, no momento mais difícil que eu havia vivido até então.

No momento mais difícil que eu já vivi, ela me mandou esse lampejo de esperança.

Só hoje percebo a profundidade das palavras, o potencial que ela via em mim, a esperança danada que aquela danada tinha em mim.

Mélis... preciosa é o que ela é.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Quem dá aos pobres...

 


Em 1966, papai estava prestes a entrar no sexto ano de seu pastorado quando, por uma série de motivos, alguns deles bastante intrincados, ficou decidido que a família teria de deixar Rodeador, uma pequena corrutela que se estendia pela beira de um rio, na região rural do município de Salgado de São Félix, na Paraíba.

Iriam para o interior da Bahia.

Mamãe, grávida de três meses, não fazia a menor ideia de onde ficava esse lugar. Tanto que imaginava que viajariam de avião. Coitada! O aeroporto mais próximo ficava na capital.

A viagem, porém, seria bem diferente.

A família teria de fazer todo o percurso de ônibus: de Rodeador a Recife; de Recife a Salvador; e de Salvador até Canal, a pequena vila para onde estavam indo, que tinha menos de dois mil habitantes.

Foram três dias de viagem.

Em 1966 não se viajava à noite como hoje. Quando anoitecia, o ônibus parava e os passageiros precisavam pousar em algum lugar. E houve uma dessas noites em que o lugar era tão sujo que mamãe simplesmente não conseguiu dormir.

Passou a noite sentada.

Papai e as três meninas — Tutinha, com quatro anos; Eva, com três; e Quel, com um ano e meio —, vencidos pelo cansaço, conseguiram dormir. Mamãe, não.

E mesmo sem conseguir dormir, continuou cuidando delas.

Colocou lençóis junto à parede, formando uma proteção para que, enquanto dormissem, as meninas não se encostassem naquela parede imunda.

Era uma mulher grávida de três meses, numa viagem de três dias, com três crianças pequenas, deixando para trás uma vida inteira e indo para um lugar que ela mal sabia onde ficava.

Mas antes de partir havia acontecido uma coisa que, para mim, revela ainda mais profundamente quem era Lalau.

Como a família teria de se desfazer de praticamente tudo, ficaram somente com as roupas. Móveis, panelas, utensílios — tudo teria de ser conseguido novamente na nova morada onde quer que fosse.

Havia, entretanto, uma coisa que mamãe guardara cuidadosamente: todo o enxoval de Quel.

Era assim naquele tempo. A criança seguinte herdaria praticamente tudo da irmã anterior. O enxoval de Quel estava lavado, engomado, passado e guardado para o próximo bebê.

E o próximo bebê já estava a caminho.

Pouco antes da viagem para Recife, quatro mulheres apareceram para fazer uma visita.

As quatro estavam grávidas.

Sem saber que mamãe também estava, perguntaram:

— Dona Laodice, a senhora não teria umas roupinhas para nos dar, de suas gravidezes anteriores?

Eram mulheres muito pobres. Pobres de Jó.

Mamãe poderia ter separado algumas peças. Afinal, estava grávida de três meses e sabia que, dentro de poucos meses, precisaria daquele enxoval. E sabia também que a família estava prestes a começar praticamente tudo de novo.

Mas Lalau deu todo o enxoval.

Tudo.

As roupas estavam cuidadas como se esperassem justamente pelo bebê que ainda viria: lavadas, engomadas e passadas, cheirando a Alfazema, aquela colônia tão comum à época, de líquido esverdeado.

O enxoval foi repartido entre as quatro mulheres.

Dividido por quatro, naturalmente, não sobrava uma grande quantidade para nenhuma delas. Mas foi uma festa.

Para aquelas mulheres, aquelas roupinhas significavam muito.

E mamãe sabia exatamente o que estava fazendo.

Ela sabia que estava grávida.

Sabia que precisaria de outro enxoval.

Sabia que a família teria de conseguir móveis, panelas e tudo o mais para a nova casa.

Sabia que estava indo para uma terra desconhecida.

E, mesmo assim, deu aquilo que havia guardado para a próxima criança que teria e que chegaria dentro em pouco.

Depois disso, a família partiu.

Três dias de ônibus.

Rodeador, Recife, Salvador, Canal.

E, finalmente, chegaram.

Um presbítero da igreja os recebeu, deu as boas-vindas e, naturalmente, perguntou:

— Como foi a viagem?

Depois de três dias de estrada, grávida, com três meninas pequenas, depois de uma noite inteira sentada num lugar onde não conseguiu sequer se deitar...

Lalau só conseguiu responder:

— Estou viva.

E estava.

Havia chegado.

Na nova igreja, as mulheres acolheram aquela família que acabava de chegar de tão longe. E, sabendo que Lalau estava grávida, fizeram por ela aquilo que ela havia feito pouco antes por aquelas quatro mulheres na Paraíba.

Deram-lhe todo o enxoval do bebê.

Novo.

Novinho.

Estalando.

Assim, em menos de seis meses, Lalau havia dado o enxoval que guardara para seu próprio filho (eu!) e recebido outro, inteiramente novo, das mulheres da nova igreja.

Mas o que torna essa história grandiosa não é simplesmente o fato de que ela recebeu depois de dar.

É que, quando Lalau deu, ela não sabia que receberia.

Não tinha nenhuma garantia.

Não estava cercada de abundância.

Ao contrário: estava prestes a deixar sua casa, sua comunidade e praticamente todos os seus bens; estava grávida de três meses; tinha três filhas pequenas; viajaria durante três dias de ônibus para uma vila desconhecida no interior da Bahia e teria de começar uma nova vida quase do zero.

Mesmo assim, quando quatro mulheres pobres e grávidas lhe pediram ajuda, Lalau não fez a conta do que precisaria guardar para si.

Ela simplesmente deu.

E talvez seja justamente por isso que essa lembrança, contada por ela quase sessenta anos depois, tenha me impressionado tanto.

Porque naquele gesto aparentemente pequeno — um enxoval de criança, algumas roupinhas, um cheiro de Alfazema — havia uma coisa enorme.

Uma mulher que, mesmo tendo pouco, não era pequena na hora de repartir.

E talvez a resposta tenha vindo sem que ela a procurasse.

Ela deu o enxoval.

Recebeu outro.

Mas o que ela havia revelado naquele primeiro gesto já era dela.

O tamanho do coração de Lalau.

E para fazer jus à fé professada por mamãe (e por mim), concluo este relato com as seguintes palavras de Jesus: 

"[...] deem e lhes será dado; boa medida, prensada, sacudida e transbordante será dada a vocês; porque com a medida com que tiverem medido vocês serão medidos também." (Lucas 6.37 NAA)






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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O nascimento de um raio de sol

 

Setembro chegou.

Barrigão.

— Meu Deus, e essa criança que não nasce?!

Era a quarta gravidez. Mamãe estava cansada. Tinha que cuidar das coisas da casa, de três meninas — de quatro, três e dois anos — e ainda cuidar do marido.

Sertão da Bahia. O oco do mundo, por assim dizer. Afinal, estávamos no ano de 1966, num povoado que não deveria ter nem 1.966 habitantes, sem calçamento, sem asfalto, sem luz... Que fim de mundo era aquele!

Mamãe fora bem recebida lá, em Canal, como se chamava à época. Chegara o reverendo novo, JJ, acompanhado daquela senhora grávida e de três filhas. Eram muito aguardados. Especialmente papai, que cuidaria de duas igrejas ao mesmo tempo, uma distante uma légua da outra.

As senhorinhas do povoado tomaram-se de amores por mamãe. Compadecidas? Também. Além de compaixão, mamãe despertava amores. todo o ciúme de papai não deveria ser uma obra do acaso.

A casa era grande. Piso de ladrilhos (chamava-se piso de mosaico). Daqueles antigos. Os tetravôs do porcelanato que hoje se usa em casas de granfinos.

— Essa criança está demorando! Ah, mas de hoje não passa... — pensou mamãe.

Sim, ela me contou assim.

Começou a arrumar a casa.

Encheu duas latas de água. Uma com sabão — detergente ou sei lá o quê — e outra só com água mesmo.

Detalhe: na casa não havia água encanada. Toda água era buscada num poço que ficava na praça da casa em que eles moravam.

Casa varrida e arrumada. Hora de passar pano.

Se tudo saísse conforme o planejamento daquela mãe de três crianças, a quarta chegaria ainda pela manhã.

— Darling — assim eles se chamavam um ao outro —, lá pras dez horas vá chamar Dona Belarmina!

Então ela foi posicionar estrategicamente as latas para começar a limpeza do chão.

Silêncio na casa.

Ela chegou-se para olhar pela janela.

Lá ia Darling, já dobrando a esquina.

Não. Ainda era muito antes das dez horas.

Ô homem avexado!

Bom, mamãe foi limpar o quarto.

Com aquele barrigão, não conseguia ficar muito tempo em pé. Sentou-se ao chão. Da lata de água com sabão ela tirava o pano e limpava o chão. Torcia e o punha de volta naquela lata.

Da outra, que só tinha água, ela tirava um pano, limpava a área, como que enxaguando, torcia de volta o pano e o colocava de volta na lata.

Ladrilho por ladrilho.

Fileira por fileira.

Arrastando-se sentada pelo chão.

— Dona Laodice, tudo bem? Reverendo foi me chamar... A senhora... o que a senhora está fazendo? Pensei que estivesse em trabalho de parto.

— Dona Belarmina, eu estou limpando a casa. Mas acho que vai nascer hoje...

(Claro que iria! A danada estava dando seu jeito...)

— Vamos examinar?

Depois do exame:

— Ah, não é pra agora. Antes do meio-dia eu passo por aqui.

— Então está certo.

...

— Oxente, Darling, eu falei que era pra chamar depois das dez...

— Ah, pensei que já estava nascendo.

Mamãe voltou aos seus ladrilhos.

🎵Leiê, leiê,🎶leiê, leiê, leiê... 🎶

Limpa daqui, limpa dali, levanta uma cadeira aqui, arrasta uma poltrona acolá, tira pano, torce pano, ladrilho, ladrilho, mais outra fila de ladrilhos...

Casa limpa!

Tudo preparado.

Chega Dona Belarmina.

— Ah, acho que vai ser por agora mesmo. Vamos ferver água.

Chaleiras ao fogo.

Toalhas na bacia.

Quarto pronto.

Janelas e cortinas fechadas para não entrar nem poeira e nem friagem.

Foram-se para o quarto.

Não sei se houve alguma auxiliar de parto.

Detalhes me foram poupados.

Só sei que, quando nasci, Dona Belarmina falou:

— É um menino!

Então veio aquela frase inaudita que entrou para a história da família.

— Nasceu meu raio de sol!


Era 15 de setembro de 1966, 11h30. Nasci com um pouco mais de 4kg. Esfomeado. Talvez por causa da hora: do almoço. Segundo mamãe, 'comendo a mão'.

Papai foi comunicado.

E essa é a verdadeira história do meu nascimento, contada a mim por mamãe.

Agora, se quiser saber a minha própria versão dessa história (um tanto apócrifa, mas realmente boa), clique aqui. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O nome feio que não virou palavrão


 

Morávamos no João Paulo II.

Apesar do "Segundo", ele era o primeiro edifício da rua de onde nossas caminhadas começavam.

Eu já tinha, naquela época, uma preocupação recorrente com o corpo. Minha família tinha seu histórico de sobrepeso, e eu já experimentara de tudo um pouco: dietas, algumas bastante sensatas, outras completamente piradas, academias e, sobretudo, caminhadas. Muitas caminhadas.

Os filhos foram chegando a esse cenário aos poucos. No começo, levá-los comigo era quase um passeio. Andávamos sem compromisso, conversávamos, parávamos, retomávamos o passo. Depois, à medida que foram crescendo, o passeio foi ganhando jeito de caminhada mesmo. Havia um percurso, uma distância, um ritmo e, claro, a hora em que as pernas começavam a reclamar.

Naquela manhã, JV estava comigo.

Saíamos de casa e, descemos a rua e dobramos à direita. Uns quinhentos metros adiante, encontramos o eucaliptal. O cheiro que vinha das árvores era uma espécie de recarregador natural. Bastava chegar ali para o corpo parecer esquecer, por alguns minutos, que ainda havia muita caminhada pela frente.

Depois vinham as montanhas de brita da estação do metrô que estava sendo construída. Passávamos por entre elas e seguíamos.

Em algum ponto do caminho, quando o cansaço já começava a aparecer, eu lançava mão do meu recurso secreto: chicletes de canela. Eu os levava para esses momentos. Era a nossa pequena recarga de energia.

JV gostava deles. Muito.

Talvez por isso os chicletes também funcionassem como um incentivo bastante eficiente para que continuasse caminhando comigo.

Depois da brita, vinha uma descida em direção ao centro de Taguatinga. À esquerda, tomávamos uma longa reta, quase interminável, com casas de um lado e um bosque do outro. Ao final dela estava o Hospital de Taguatinga.

Mais uma vez à esquerda.

Uma pequena descida.

E então ela aparecia.

A temida.

A tal.

A subida final.

Naquele dia, porém, ainda não sabíamos que ela estava prestes a ganhar um nome.

Estávamos ainda no começo da subida quando dois garotos surgiram lá de cima, descendo de bicicleta. Vinham embalados. Desciam à toda, aproveitando a inclinação que, para nós, era justamente o contrário: uma parede a ser vencida.

Passaram por nós em um átimo.

Um deles, ao nos ultrapassar, virou-se o suficiente para lançar seu grito:

— Arrooooooocha, gordão!

Embora ele tivesse desaparecido ladeira abaixo, pedalando com a mesma disposição com que havia descido, seu grito continuou ecoando nas nossas cabeças. Fiquei entre atônito e incrédulo com a inusitada audácia. Como pode?

Eu nem tive tempo de reagir.

JV teve.

Olhou para mim e, com a maior naturalidade do mundo, tratou de reparar a injustiça:

— Ele... ele... ele nem falou com a gente, não é, papai?

Sempre generoso, esse meu filho.

Não me lembro se continuamos a rir enquanto subíamos. Provavelmente, sim.

Mas me lembro que, a partir daquele dia, aquela deixou de ser simplesmente a ladeira.

Passou a ser a Ladeira do Arrocha.

Melhor do que o novo topônimo foi a descoberta da cumplicidade leal de JV. Por isso, a mera lembrança da Ladeira do Arrocha continua a me revigorar.






Ideias organizadas com suporte de IA e rigorosamente revisadas por mim. Conteúdo e voz autoral estritamente meus.

domingo, 9 de agosto de 2026

Os pais e os filhos que encontrei num filme



Não sei exatamente quando João José foi ficando sisudo. Sei que não era assim quando o conheci. Conheci antes o homem brincalhão, o contador de histórias de terror para a meninada da rua, o contador das histórias que provavelmente recebera de sua própria mãe, o homem capaz de me encomendar um caminhão de madeira. Depois, em algum ponto da minha infância, ele foi mudando. Tornou-se severo, sisudo, pesado. Talvez as circunstâncias tenham feito isso com ele. Algumas eu conheço. Outras, nunca conheci. Há coisas que meu pai não contou a ninguém e que foram embora com ele. Nós, homens, temos nossos próprios segredos.


Foi muitos anos depois, já homem feito, que um filme me fez voltar a meu pai.

Eu assistia a Gonzaga: De Pai para Filho, a história de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Seir estava ao meu lado.

E eu chorei.

Chorei praticamente o filme inteiro.

Na verdade, chorei antes mesmo de entender por quê.

A cada tentativa de aproximação de Luiz Gonzaga com o filho, eu chorava. A cada tentativa de Gonzaguinha de se aproximar do pai, eu chorava também. Não era apenas a história deles que estava diante de mim. Era como se, em cada uma daquelas cenas, alguma coisa da minha própria história se levantasse e dissesse: “Olha aqui.”

Gonzaguinha queria o pai.

Eu conhecia aquela falta.

Eu havia tido um pai. Meu pai estivera ali. Mas, durante boa parte da minha segunda infância e chegando à adolescência, nós não fomos próximos. Não éramos amigos. Nosso contato acontecia muito em torno da fé: cultos domésticos, cultos nas casas, cultos na igreja. Havia também as idas à feira, quando eu o acompanhava nas compras de verduras, frutas, carne e outras coisas que, naquele tempo, ainda não se encontravam facilmente em supermercados.

Mas não havia brincadeiras.

Não havia a bola.

Não havia a ida à padaria para comprar pão e, já que estávamos ali, tomar um café juntos.

Não havia aquela companhia desnecessária, gratuita, sem finalidade alguma — aquela companhia que talvez seja uma das formas mais simples de amor entre um pai e um filho.

E, enquanto eu assistia ao filme, fui lembrando do meu pai.

Do pai que eu conhecera antes.

Do homem que contava histórias de terror para a meninada da rua. Das histórias que provavelmente havia recebido de sua própria mãe. Do homem que podia entrar no universo de uma criança e me encomendar, com toda a seriedade do mundo, um caminhão de madeira.

E fui lembrando também do homem em que ele havia se transformado.

Meu pai nasceu em 1918. Entre nós havia 48 anos e meio de diferença. Quando ele tinha cinquenta anos, não me parecia nem de longe com o que eu sou aos sessenta. Papai já era, aos meus olhos, um senhor. Um idoso.

Talvez por isso eu tenha demorado tanto a perceber que havia ali, antes daquele homem severo e sisudo, outro João José.

Um homem que talvez tenha se cansado.

Ele passou um longo período doente. Hoje penso que talvez estivesse também emocionalmente esgotado. Havia uma época em que seus remédios ocupavam praticamente uma caixa de sapatos inteira. Tinha insônia. Tinha medos. Não gostava de ficar acordado sozinho e, quando minha mãe dormia, resmungava que ela não estava nem aí para ele, que não se importava se ele não estava bem.

Coitados.

Cada um a seu modo.

Meu pai também era um pastor tipo Bombril. Mil e uma utilidades. Havia sempre alguma coisa para fazer, alguém para visitar, algum culto, alguma responsabilidade, alguma necessidade. E, quando ele estava em casa, o ambiente muitas vezes ficava pesado.

Mas eu não consigo olhar para tudo isso hoje e simplesmente dizer: “Meu pai era assim.”

Não.

Meu pai havia se tornado assim.

E talvez essa diferença seja uma das coisas que só consigo perceber agora.

Houve um dia, não sei quantos anos eu tinha, em que papai me abraçou.

Eu chorei.

Ele perguntou por que eu estava chorando.

Eu não soube responder.

Talvez o menino também não soubesse.

Talvez ele apenas tivesse encontrado, de repente, uma coisa que lhe fazia falta e que ele não sabia que lhe fazia falta.


Quando me tornei pai, fiz questão de fazer diferente.

Brinquei com meus filhos. Rolei no chão. Pintei e bordei. Carreguei na cacunda. Fui ao supermercado. Fui à padaria. Fui ao shopping. Joguei um pouco de bola — embora eu nunca tenha sido muito de bola, talvez justamente porque nunca aprendi a sê-lo.

Eu os abracei muito.

Cheirei muito meus filhos.

Beijei muito meus filhos.

Disse muitas vezes que os amava.

Eu tinha um conceito bastante alto de mim mesmo como pai. Acho que ainda tenho.

Mas hoje consigo reconhecer uma coisa que naquele tempo eu talvez não percebesse: eu estava fazendo duas coisas ao mesmo tempo.

Estava sendo pai deles.

E estava, de algum modo, reparando em mim mesmo.

Tentava oferecer a eles aquilo que eu gostaria de ter recebido de meu pai. E, ao oferecer aquilo a eles, alguma coisa em mim também era cuidada.

Eu estava reparando duas coisas ao mesmo tempo.


Então a vida fez uma coisa particularmente cruel.

Eu me tornei pai justamente tentando ser um pai muito presente. E, de repente, fui privado da proximidade com meus filhos.

A separação foi inesperada. Para mim e para os três.

Houve o choque de descobertas inesperadas, a ruptura, a casa que passei a administrar sozinho, as aulas que continuavam, o coral da igreja, a cantata de Natal, a necessidade de continuar funcionando enquanto minha vida parecia ter perdido o eixo.

Houve até a humilhação íntima de preencher formulários e precisar marcar a palavra “divorciado”.

Uma vez chorei numa repartição pública fazendo isso.

Eu era separado.

Como aquilo tinha acontecido?

Havia também o olhar das pessoas. Às vezes de compaixão. Às vezes de julgamento. E houve ainda uma outra relação, rápida e intensa, que quase se transformou em casamento quatro meses depois da separação e que também não deu certo.

Mas havia uma dor que, naquele momento, parecia ainda mais funda: a distância dos meus filhos.

Eles se recolheram. Talvez, hoje penso, para não tomar partido. Talvez também para viverem as próprias dores que uma separação dos pais necessariamente inflige.

Naquele tempo, porém, eu não conseguia enxergar assim.

Eu tinha tantos buracos emocionais que o distanciamento deles era mais um.

Eu me sentia — e uso aqui uma palavra forte porque era assim que eu sentia — orfanado de filhos.

Meu Deus.

Que dor.

Eu queria meus filhos perto.

Muito.

E então eu estava diante de Gonzaguinha.

Ele queria o pai.

Muito.

E, do outro lado, Gonzagão queria chegar ao filho.

Muito.

Foi aí que meu Gonzagão e meu Gonzaguinha começaram a se encontrar.

Repetidas vezes.

Durante todo o filme.

E eu chorava.

Chorava pelo meu pai.

Chorava pelos meus filhos.

E, em algum lugar entre os dois, chorava por mim.


Acho que foi uma espécie de catarse.

Não no sentido rigoroso que a palavra possa ter na psicologia, mas naquele sentido em que a usamos no cotidiano: alguma coisa se abriu e uma quantidade enorme de emoção saiu de uma vez.

Ou talvez tenham sido duas catarse.

Uma para trás.

Outra para a frente.

Para trás, o filho que eu havia sido encontrava o pai que tivera.

Para a frente, o pai que eu havia me tornado encontrava os filhos que não conseguia alcançar.

E as duas coisas se encontravam dentro de mim.

Quando o filme acabou, eu estava num verdadeiro fosso emocional.

Seir estava ao meu lado.

E não sabia muito bem o que estava acontecendo comigo.

Ela não sabia que eu não estava chorando apenas por Gonzaga e Gonzaguinha.

Não sabia que, naquela sala de cinema, meu pai havia voltado.

Não sabia que meus filhos também haviam voltado.

Não sabia que eu estava, de certo modo, encontrando os dois ao mesmo tempo.

Mas ela fez uma coisa muito simples.

Ela ouviu.


Depois do filme, fomos a um restaurante.

Conversamos durante o caminho. E, à medida que falava, fui conseguindo elaborar aquilo que havia acontecido.

Seir foi uma ótima ouvinte.

Ela continua a sê-lo.

Ela acolhe.

No restaurante, estávamos sentados numa mesa quadrada. Não um de frente para o outro. Estávamos em lados contíguos.

Ela, à minha esquerda.

Entre conversas, desabafos, proximidades, nossos rostos ficaram muito próximos.

Eu a beijei. Foi nosso primeiro beijo.

E, então, comprometemo-nos ali.

Para a vida.


Talvez eu só tenha conseguido compreender plenamente aquela noite muitos anos depois.

O filme não me contou uma história sobre meu pai.

Contou-me a história de dois homens, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e me ofereceu uma chave para olhar novamente para um terceiro: João José.

E, olhando para ele outra vez, percebo que meu pai não foi apenas o homem de quem senti falta.

Ele foi também o menino que provavelmente teve suas próprias faltas.

Foi o filho de alguém de quem falava com ternura e admiração.

Foi o homem brincalhão que conheci primeiro.

Foi o contador de histórias.

Foi o homem que depois se tornou severo, sisudo, pesado.

Foi o pastor sobrecarregado.

Foi o homem dos muitos remédios, da insônia e dos medos.

Foi o marido que precisava de minha mãe por perto quando a noite ficava grande demais.

Foi meu pai.

E há coisas que eu ainda não sei sobre ele.

Talvez nunca saiba.

Há coisas que ele não contou a ninguém e que foram embora com ele.

Nós, homens, temos nossos próprios segredos.

Hoje não preciso escolher entre a falta que senti e a compaixão que consigo sentir por ele.

As duas coisas cabem na mesma memória.

Posso reconhecer que queria um pai que brincasse comigo e, ao mesmo tempo, lembrar com ternura do homem que me contou histórias.

Posso lamentar as brincadeiras que não tivemos e guardar com carinho o abraço que um dia ele me deu.

Posso reconhecer o pai que ele não conseguiu ser para mim e também reconhecer o homem que talvez tenha feito o melhor que conseguiu com os recursos que tinha, com os pesos que carregava e com os mistérios que nunca conheci.

E talvez seja isso que aquele filme tenha feito por mim.

Não reconciliou o que não aconteceu.

Não inventou uma infância diferente.

Não apagou a falta.

Apenas me permitiu olhar para meu pai sem enxergá-lo somente através daquilo que me faltou.

E talvez haja nisso uma forma tardia de encontro.

Porque meu pai se foi há muitos anos.

Meus filhos cresceram.

E eu sigo carregando os dois lados da história dentro de mim: o filho que fui e o pai que me tornei.

Quando penso nisso tudo, volto àquele menino que chorou depois de receber um abraço do pai e não soube dizer por quê.

Hoje talvez eu possa responder por ele.

Talvez ele tenha chorado porque, por um instante, o pai que ele queria e o pai que tinha se encontraram.

E talvez seja por isso que, tantos anos depois, diante de um filme sobre outro pai e outro filho, eu tenha chorado novamente.

Só que, daquela vez, havia uma mulher sentada ao meu lado.

E, sem que nenhum de nós soubesse ainda, enquanto eu chorava pelos homens que haviam marcado minha vida, a minha própria história estava começando outra vez.



Ideias organizadas com suporte de IA e rigorosamente revisadas por mim. Conteúdo e voz autoral estritamente meus.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A audição sem audiência



Minha próstata resolveu disputar uma olimpíada.

Sem me consultar, naturalmente.

Sem pedir autorização.

Simplesmente decidiu que era hora de mostrar do que era capaz.

Talvez quisesse ser a mais forte, a mais varonil, a mais musculosa, a maior de todas.

Não sei.

O fato é que adquiriu vida própria.

Durante anos, subiu ao pódio da hiperplasia prostática benigna.

Ano após ano.

O quadro de medalhas na parede provava o esforço em se superar.

Mas chegou um momento em que eu disse:

— Chega. Você já provou o que precisava provar. Está na hora de se aposentar.

Foram dez anos até a cirurgia.

Dez anos de acompanhamento.

Oito deles com meu querido amigo, o doutor Dídimo Teles, urologista em Brasília e professor da Universidade de Brasília por muitos anos.

Ele conhecia o meu caso.

Sabia que não era câncer.

Por isso, durante muito tempo, preferiu que eu aguardasse.

O problema é que eu carregava uma história familiar pesada.

Havia muitos casos de câncer na minha família materna.

Somados ao histórico do lado paterno, esses relatos formavam, na minha cabeça, um mapa de risco.

Eu sabia que existiam histórias de doenças que atravessavam gerações, e aquilo me assustava.

Então, quando meu PSA começou a subir, eu não enxergava possibilidades.

Eu enxergava uma sentença.

Eu havia esquecido completamente que o caso do meu pai era HPB.

Eu só via o câncer.

Cheguei ao consultório do doutor Dídimo carregando comigo uma certeza:

“Tenho câncer.”

Não era apenas a saúde.

Era também o final traumático do meu primeiro casamento, uma fase em que eu estava emocionalmente muito fragilizado.

Eu estava tenso.

Nervoso.

Assustado.

E ele percebeu.

As primeiras consultas foram inesquecíveis.

Não foram apenas consultas médicas.

Foram aulas.

Anatomia.

Fisiologia.

Explicações.

Conversa.

Calma.

Ao final de cada encontro, quando percebia que minha respiração já estava diferente, que meus braços já não estavam cruzados, que o suor havia diminuído, ele perguntava:

— Podemos fazer o exame agora?

Depois vinha sua avaliação:

— João, vamos confirmar com os exames de sangue, mas, pelo que consegui palpar, não há endurecimento, não há alteração preocupante na textura. Ela está aumentada, mas não há motivo para esse desespero.

E assim ele foi, aos poucos, devolvendo o tamanho real das coisas.

Quando o PSA ficou realmente mais alto, ele pediu uma ressonância magnética com contraste.

Eu nunca havia feito uma.

Se o doutor Dídimo pediu, pensei:

“É porque deve ser o exame certo.”

Ele recomendou a clínica.

Fiz a marcação por telefone.

O atendente confirmou tudo:

dia,

hora,

local,

preparativos.

Tudo certo.

Já estava encerrando a ligação quando ele se lembrou de uma pergunta:

— O senhor tem claustrofobia?

— Não.

— Ah, então está tudo bem.

Silêncio.

— Só um minuto, por favor.

— Pois não?

— Por que você me perguntou se eu tenho claustrofobia?

— Ah… é porque o exame é feito dentro de um tubo. Mas, no seu caso, não terá problema algum.

Click.

Fim da ligação.

E eu fiquei com uma única informação:

“Como assim dentro de um tubo?”

Cheguei ao dia do exame tenso.

Fiz a entrevista.

Recebi as orientações.

Tirei a roupa.

Seriam quarenta a quarenta e cinco minutos:

Primeiro a ressonância sem contraste.

Depois o contraste.

Depois uma nova sequência.

Todos foram extremamente gentis.

Chegou a hora.

Deitei na maca.

Braço direito acima da cabeça para o acesso do contraste.

O corpo entraria inteiro no aparelho.

Na mão esquerda, o botão de emergência.

“Se precisar, aperte.”

Foi colocado sobre minha barriga um “travesseiro”.

Um peso de aproximadamente cento e vinte quilos.

Pelo menos era essa a sensação.

A função era evitar movimentos.

Eu deveria respirar calmamente.

A sala ficou escura.

Só a luz da máquina permanecia acesa.

E estava frio.

Muito frio.

Um frio concreto, de sala de exame.

Pelo autofalante da sala, escutei:

— Seu João, vamos começar o exame. Se puder respirar mais calmamente, melhor, para não precisarmos parar e recomeçar todo o processo novamente. Vai dar tudo certo.

Alguns segundos.

Eternos.

De repente, o barulho da máquina ligando.

“Meu Deus, me ajude.”

“Eu não sou claustrofóbico.”

“Meu Deus… e se houver um terremoto e esse prédio cair, e eu aqui dentro dessa máquina?”

“Deus me ajude.”

Então começou.

A barulheira.

Uma barulheira infernal.

Minha ansiedade foi de zero a mil em milésimos de segundos.

A mão segurava o botão.

“Eu quero sair daqui.”

Minha respiração ficou ofegante.

O barulho mudava.

As pancadas mudavam.

A maca se deslocava um pouco mais para dentro.

Eu estava de olhos fechados desde o início.

E então aconteceu.

De repente.

Não mais que de repente.

No meio de todos aqueles sons absurdamente altos, minha mente percebeu uma sequência.

Uma sequência harmônica.

“Acordes.”

“São acordes.”

“Eu consigo perceber acordes.”

Eu estava tentando me lembrar de algum salmo para me acalmar.

E veio o Salmo 1:

“Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios…”

Então veio o pensamento:

“Mas esse não é o hino número 1 do Hinário Salmos e Hinos?”

Comecei a cantá-lo mentalmente.

Quando terminou, veio outro hino:

“Divino Salvador.”

Depois outro.

E outro.

E outro.

Os hinos continuaram vindo.

Todos cantados mentalmente.

Nenhuma voz saiu da minha boca.

Nenhum ouvido além do meu os ouviu.

O som da máquina continuava.

Mas agora havia música.

À medida que o tom mudava, eu modulava o hino da vez.

A máquina fazia o seu trabalho.

E eu fazia o meu.

Cantava.

Quanto mais eu cantava, mais relaxado ficava.

Até que me assustei ao ouvir pelo alto-falante:

— Seu João, acabou.

Não sei dizer em que altura dos 604 hinos do Hinário Salmos e Hinos eu dormi.

Só sei que dormi.

Dentro do tubo.

Mais tarde, pensando naquela experiência, entendi de onde vinha aquela capacidade de encontrar música no meio do ruído.

Vinha de muitos anos antes.

Vinha de uma casa onde poesia era falada, a Bíblia era decorada e música fazia parte da rotina.

Vinha dos cultos domésticos conduzidos por meu pai.

Vinha dos hinos cantados tantas vezes.

Vinha das vozes da minha família.

Mas, naquele momento, dentro daquela máquina, eu não pensei em nada disso.

Eu apenas ouvi.

E cantei.

Aquelas experiências haviam deixado algo guardado.

Uma reserva.

Uma linguagem.

Uma música esperando a hora certa.

Naquele dia, a ressonância procurava imagens do meu corpo.

Mas acabou revelando outra coisa:

havia música guardada dentro de mim.

Minha próstata resolveu disputar uma olimpíada.

Treinou por anos.

Ganhou volume.

Preparou-se para a grande competição.

Só não contava com um detalhe:

seria desclassificada antes mesmo da prova.

No fim, não ganhou medalha alguma.

Mas conseguiu algo que jamais imaginou.

Levou-me a uma audição sem plateia.


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