segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Músicas que contam minha história de amor

Seir,

hoje faz treze anos.

Treze anos desde aquele dia em que nós dois, já não exatamente adolescentes — embora eu ainda tenha lá minhas dúvidas quanto a mim —, resolvemos dizer diante de Deus e de todo mundo que queríamos andar juntos pela vida.

E há uma coisa daquele casamento que hoje me parece ainda mais bonita do que me parecia naquele dia: nós escolhemos tudo.

A dedo.

Não foi alguém que sugeriu uma música bonita para a entrada da noiva. Não foi o pessoal da igreja que montou uma sequência tradicional. Não foi um cerimonialista que apareceu com uma pastinha dizendo: “Essa aqui fica linda nessa hora”.

Não.

Fomos nós.

João e Seir.

Escolhemos cada música, cada momento, cada passagem.

Mas há uma coisa curiosa: embora as músicas fossem escolhas nossas, a história que elas contavam apontava para Deus.

E hoje, treze anos depois, quando olho para aquela cerimônia, percebo que as músicas não foram apenas músicas.

Elas contaram a nossa história.

A primeira foi “Bem Vindo”.

E já aí havia uma coisa bonita: não era uma música para nos receber.

Era para receber Deus.

“Tu és bem-vindo ao nosso meio.”

A cerimônia começou assim.

Antes de João. Antes de Seir. Antes do casamento. Antes de qualquer declaração de amor.

Deus.

Como quem dissesse: “Pronto. Estamos aqui. Agora venha o Senhor estar conosco.”

E então entrou Jônathas, cantando “Hino ao Amor”.

Para mim.

O filho da mulher com quem eu estava me casando cantando para o homem que entrava para se casar com a mãe dele.

E a música não dizia simplesmente que o amor era bonito.

Pedia que o amor crescesse, que ultrapassasse o coração, que fosse mais do que emoção, que falasse de esperança mesmo quando tudo sugerisse que não.

E então veio aquela frase que talvez tenha passado depressa demais para quem estava ouvindo:

“Cada qual seu amor no amor de Cristo,
pra que os três venham a ser somente um.”

Olha só.

Não era simplesmente João e Seir.

Era João, Seir e Cristo.

Não como uma fórmula decorativa para casamento cristão.

Como o centro.

Como o ponto para onde os dois amores deveriam convergir.

Depois veio a sua entrada.

E quem cantou foi Gabriela.

Minha filha.

Ela cantou “How Great Is Our God”.

Hoje, quando penso nisso, acho que entendo melhor o que estava acontecendo.

Você não estava simplesmente entrando.

Você estava testemunhando.

Depois de tudo o que a vida tinha sido, depois de tudo o que você havia atravessado, depois dos caminhos que trouxeram você até aquele momento, você queria que aquelas pessoas soubessem uma coisa:

How great is our God.

Como é grande o nosso Deus.

Não era apenas a entrada da noiva.

Era um testemunho.

E houve ainda um momento que não poderia faltar naquela história: a apresentação da noiva à matriarca.

Você foi apresentada à minha mãe.

Àquela que, para mim, não era apenas mãe, mas a grande memória viva da nossa família.

E hoje eu penso que havia ali uma espécie de passagem de bastão.

Você, chegando à nossa família.

Ela, recebendo você.

E eu, no meio das duas, provavelmente sem fazer ideia da quantidade de história que ainda haveria pela frente.

E então, depois da sua entrada, vieram Jônathas e Hadassa.

“Essência de Deus”.

E foi como se a cerimônia, depois de apresentar os dois que estavam se casando, parasse por um instante para olhar novamente para Aquele que estava no centro de tudo.

Não era mais apenas a história de João e Seir.

Era a história de Deus no meio dela.

E então veio “Tu És Fiel, Senhor”.

Todos.

A comunidade inteira.

E isso também é bonito quando se olha para trás.

Porque nós dois não estávamos ali sozinhos.

Havia gente que nos amava, que nos conhecia, que orava por nós, que compartilhava aquele momento.

E todos juntos cantando sobre a fidelidade de Deus.

Depois disso, veio a nossa música.

“Lado a Lado”.

E essa talvez seja a música que mais me faz olhar para trás hoje.

Porque ela fala de reconhecer Deus quando se olha para o passado.

De perceber sua mão sustentando aquilo que foi sonhado.

De perceber, nas cores do passado, aquilo que talvez só muito depois tenha ficado claro.

“Foi a tua mão
que sustentou o sonho acalentado...”

Nós havíamos escolhido aquela música.

Mas o que estávamos cantando era justamente isto: quando olhávamos para trás, reconhecíamos a mão de Deus na nossa história.

E então vinha a frase que, treze anos depois, ganhou um peso que naquele dia nós ainda não poderíamos conhecer:

“Que nos separou
nos preparou pra andarmos lado a lado.”

Hoje eu penso nisso e fico impressionado.

Porque naquele dia nós estávamos começando.

Hoje nós sabemos um pouco mais do que significa continuar.

E a música terminava colocando diante de Deus aquilo que éramos e aquilo que ainda seríamos:

“O que somos e seremos,
para o teu louvor.”

O “seremos” daquele dia era enorme.

Hoje ele já tem rosto.

Tem memória.

Tem cicatriz.

Tem gargalhada.

Tem cotidiano.

Tem história.

Tem nós dois.

Depois veio a palavra do celebrante.

E foi aí que duas histórias bíblicas se encontraram na nossa história.

Primeiro, Caná da Galileia.

Ele falou do vinho que havia acabado.

E falou do simbolismo do vinho naquele casamento: a alegria.

Porque casamento também é isso: alegria compartilhada, celebração, festa.

Mas o vinho pode acabar.

A alegria pode diminuir.

O que era abundante pode parecer insuficiente.

E foi então que ele nos lembrou de Cristo.

Quando falta o vinho, Cristo pode trazê-lo de volta.

Depois, ele nos levou a Cantares.

E ali apareceu outra imagem que nunca mais saiu da minha cabeça:

o fim do inverno.

O inverno havia passado.

E nós estávamos nos casando justamente ali, no seu fim.

O celebrante nos mostrou que o casamento podia ser também isso:

colocar fim ao inverno e ir ao encontro da primavera.

E eu acho que naquele dia nós nem imaginávamos o quanto aquela imagem seria apropriada para nós.

Porque nós não estávamos apenas nos casando.

Estávamos saindo de um inverno.

E indo juntos para a primavera.

Depois da pregação veio a bênção das alianças.

E então chegamos a “Sublime Amor”.

E aqui, Seir, eu preciso confessar uma pequena intervenção do compositor João.

A letra dizia:

“Da mesma maneira, querida...”

Mas eu não cantei “querida”.

Eu cantei:

“Da mesma maneira, Seir, eu...”

kkkkkkkkkkkkkkkk

Porque, convenhamos, se era para eu cantar aquilo olhando para você, por que cargas d'água eu haveria de cantar “querida”?

Naquele instante, a música deixou de ser apenas uma música.

Era eu falando com você.

Seir, eu quero me entregar.

E então nós cantamos que o nosso amor vinha do Senhor. Que queríamos lembrar disso em cada instante.

E o refrão repetia aquele “Aleluia, Te amo, Glória a Deus”.

Simples.

Quase desarmado.

Depois de tanta coisa, tanta espera, tanta história, tanta elaboração...

Aleluia.

E, quando parecia que tudo já tinha sido dito, veio “Em Seu Nome”.

Eliab cantando.

A música trouxe de volta a comunidade.

A igreja.

A oração.

A promessa de que, onde dois ou três estivessem reunidos em nome de Jesus, Deus estaria ali.

Nós cantamos para Ele.

Pedimos que recebesse aquele cântico.

E terminamos proclamando:

“O teu imenso amor nos alcançou!”

*(Agora, Seir, deixa eu fazer uma coisa que naquele dia eu não poderia fazer. Deixa eu voltar às músicas, uma por uma, mas desta vez olhando para elas daqui de hoje.

Porque acho que só agora consigo perceber que elas não estavam apenas em sequência.

Elas estavam conversando.

“Bem Vindo” começa recebendo Deus entre nós. É como se dissesse: antes de qualquer coisa, Ele está aqui.

E “Hino ao Amor” parece responder: se Ele está aqui, então nosso amor não pode encontrar em si mesmo o seu ponto final. Ele precisa encontrar em Cristo o seu alvo comum.

Então entra você, e Gabriela canta que grande é o nosso Deus. Como se a resposta àquela primeira oração fosse um testemunho: sim, o Deus que recebemos é grande.

“Essência de Deus” aprofunda o olhar. Já não estamos apenas dizendo que Deus é grande; estamos contemplando quem Ele é.

E “Tu És Fiel, Senhor” vem como resposta da comunidade: o Deus que está conosco, o Deus a quem o amor se dirige, o Deus cuja grandeza contemplamos, é fiel.

Então chegamos a “Lado a Lado”.

E aí tudo aquilo deixa de ser apenas teologia e entra na nossa história.

Se Deus é fiel, podemos olhar para trás.

Podemos reconhecer sua mão.

Podemos perceber cores que talvez não enxergássemos naquele momento.

Podemos dizer que aquilo que nos separou também nos preparou.

E podemos andar juntos.

Lado a lado.

Então o celebrante nos leva a Caná.

E descobrimos que até o vinho da alegria pode acabar — mas que Cristo pode trazê-lo de volta.

E nos leva a Cantares.

E descobrimos que o inverno passa.

Que há uma primavera depois dele.

Que é possível sair de um tempo de frio e caminhar para outro tempo.

E nós, justamente naquele dia, estávamos fazendo isso.

Depois vem “Sublime Amor”.

E agora a resposta já não é apenas “Deus está aqui”, nem “Cristo é o centro”, nem “Deus é grande”, nem “Deus é fiel”, nem “o inverno passou”.

Agora a resposta é pessoal.

Eu me entrego.

Eu, João.

A você, Seir.

Mas sem esquecer que o nosso amor vem do Senhor.

E então “Em Seu Nome” abre tudo outra vez.

O que começou entre dois agora volta para todos.

A oração volta.

A comunidade volta.

Deus volta a ser invocado.

E a história inteira desemboca naquela frase:

“O teu imenso amor nos alcançou.”

Talvez seja por isso que hoje eu veja aquelas músicas como uma única história.

Uma deixando uma frase para a seguinte.

Uma completando a outra.

Como se, sem que nós soubéssemos, cada música já estivesse preparando a próxima.

E como se todas, juntas, estivessem dizendo uma coisa só:

Deus esteve aqui.
Deus foi fiel.
O amor nasceu.
O inverno passou.
A primavera começou.
E nós fomos chamados a andar juntos.

Fecho o parêntesis.)*

E então aconteceu uma das coisas mais bonitas daquela cerimônia.

O último acorde do “alcançou” já era, ao mesmo tempo, o começo de outra coisa.

No próprio acorde de “alcançou” começou “Pompa e Circunstância”.

O acorde ainda estava no ar...

e a marcha começou.

Eu acho isso maravilhoso.

Porque, de certo modo, a cerimônia terminou dizendo:

O amor de Deus nos alcançou.

E a música seguinte respondeu:

Então vamos.

kkkkkkkkkk

Era quase como se Deus tivesse dito:

“Pronto. Agora chega de ficar aqui dentro. Vão viver.”

E nós fomos.

E eu fiz o que, naquele momento, parecia ser a coisa mais natural do mundo:

peguei você nos braços.

Depois de tudo aquilo — depois da música, da oração, das promessas, dos testemunhos, do “Lado a Lado”, do “Sublime Amor”, do “Em Seu Nome” — eu finalmente podia anunciar, em meu próprio idioma:

“Agora sim, posso levar pra casa.”

😂

E levei.

Treze anos depois, Seir, continuo levando.

Só que agora nós sabemos uma coisa que naquele dia ainda não sabíamos:

a primavera não era um lugar aonde chegaríamos.

Era o caminho que começava naquele dia.

Vieram os dias que nós imaginávamos e outros que jamais teríamos imaginado. Vieram alegrias, preocupações, família, mudanças, histórias, pequenas coisas do cotidiano, risadas, silêncios, conversas, músicas, orações.

Veio a vida.

A vida de verdade.

Treze anos.

E ainda estamos indo.

Lado a lado.

E talvez seja esse o nosso maior “felizes para sempre”.

Não porque chegamos ao fim da história.

Mas porque ainda estamos escrevendo.

Juntos.

Lado a lado.

E, se Deus permitir,

ainda por muito, muito tempo.

Feliz nosso 13º aniversário, Seir.

Eu escolheria você outra vez.

E, se me deixassem escolher as músicas...

eu escolheria as mesmas.

Só que agora eu cantaria cada uma delas sabendo um pouco mais do que elas queriam dizer.

E naquela parte...

“Da mesma maneira, querida...”

eu continuaria cantando:

“Seir, eu...”

❤️



terça-feira, 15 de setembro de 2026

A história revista e atualizada

 A caminhada dos 60

Decidi fazer uma caminhada para deixar pra trás os 59 anos que se passaram. Cada passo à frente, eu avançava em direção à nova década que se me abriria em menos de 24 horas. Não que eu quisesse antecipar a data, mas a verdade é que ninguém anda em direção ao passado, portanto lá fui eu, todo ancho, caminhando em direção ao sexagenarismo no final da tardinha.


Tão logo pus o pé na rua pensei: “Por que não ligar para mamãe?”. Liguei.

— É você, apressadinho?

Ri-me. Mamãe perde um amigo, mas não perde a piada.

— Oi, mamãe. Liguei para não correr o risco dos primeiros parabéns não serem da senhora!

— Era pra você ter nascido hoje!

Opa, pensei, lá vem história. Quis me sentar pra ouvir atentamente, mas não era para tanto. Mamãe me desfiou o rosário em pouco mais de uma hora de conversa.

14 de setembro de 1966. Pelas contas [de não sei quem, esse detalhe da conversa, meu cérebro talvez tenha se recusado a gravar], seria o dia. E nada da criança querer nascer.

Foi então que, experiente em ter filhos, mamãe resolveu dar uma ajuda à natureza: pegou duas latas, uma cheia de água e outra com água e sabão, três panos de chão e foi limpar a casa.

Era uma casa grande, com mosaicos no chão.

Contou-me ela que, sentada ao chão, fez a lavagem de mosaico em mosaico. O pano da água de sabão vinha primeiro. Em seguida, ela o torcia e colocava de volta na lata apropriada. Depois, com o pano da lata de água sem mistura, retirava o excesso da água de sabão que havia ficado. Com o terceiro pano, ela enxugava o mosaico. E foi assim que todos os mosaicos da casa foram limpos porque, eu na barriga estava e na barriga continuei. Pelo jeito [hoje eu tenho certeza!] estava muito bom lá dentro. Ela me disse que deveria estar muito quentinho lá dentro, por isso eu não quis sair. Possa ser.

Fato é que ela tentou cutucar a onça com vara curta, mas não deu certo hahaha! Calma, Dona Laó, ainda não chegou a sua hora. Nem a minha. Outro fato interessante: cheguei sob a égide da limpeza! Hmmm... agora entendo um pouco mais sobre minha mania de limpeza. Não, gente, não é TOC. É genética mesmo. O homem é produto do meio. Tudo já estava escrito nas estrelas. Ou nos mosaicos. Faça sua escolha.

A tarde chegou e nada aconteceu. Mamãe resignou-se a esperar mais um pouco. Talvez acontecesse à noite? As contas estariam erradas? A natureza não entendeu os sinais que ela dera no esforço de limpar a casa? Perguntas que seriam respondidas em menos de 24 horas.

Raiou a manhã do dia 15. Um dia lindo, de sol. Muitos raios de sol.

A primeira contração aconteceu cedo, por volta das 9h. Aquela marinheira de várias — três, na verdade — viagens, entendeu o que estava acontecendo. Aguardou mais algumas contrações antes de anunciar a papai. Veio a segunda. Ela marcou o tempo pra calcular a hora de mandar chamar Dona Belarmina, a parteira da vila. A terceira contração chegou mais rápido que o intervalo anterior. Isso acendeu um alerta: “Opa, opa, opa! É já que essa criança nasce.” A quarta contração demorou a chegar. “Minha gente!” Depois de algum tempo, veio. Então vieram outras, em frequências e intensidades diferentes.

Mamãe ficou um tanto confusa. Nas três gravidezes anteriores ela havia tido contrações com frequência decrescente. Ela me explicou como eram. Na minha cabeça a segunda contração dos nascimentos das meninas viera 20 minutos após a primeira. A terceira, 19 minutos após. A quarta, 18. E por aí foi. É assim que imagino que a coisa acontece, na minha cabeça cartesiana: intervalos regularmente decrescentes entre as contrações. Mas no meu nascimento foi diferente. Ah, beeem diferente! (Hmmm... agora algumas coisas fazem mais sentido para mim.) Bom, voltemos às contrações. Ora vinha, ora não vinha. Era eu, lá dentro: não sei se vou, não sei se fico. Quero ir, mas aqui tá tranquilo.

— Darling, estou tendo contrações. Ainda é cedo e Dona Belarmina tem filhos pequenos. Essa hora ela deve estar preparando o almoço das crianças. Então mais tarde você vai chamá-la, está certo?

Mal mamãe deu as costas pra se ocupar, lá foi papai, em busca da parteira. Mamãe só viu o vulto já dobrando a esquina da Federal. Naqueles idos, haviam poucas casas e dava-se para perceber a movimentação das pessoas aos lugares onde iam. A Federal era o nome de uma estrada que cortava a cidade. Era para as bandas de onde ela seguia que Dona Belarmina morava.

Aqui preciso abrir um parêntesis para contar que, ao ouvir mamãe falar sobre a regularidade das contrações, ela usou como exemplo o que aconteceu no nascimento de Quel. Foi muito complicado. Quando chegou o tempo dela nascer, papai foi buscar Dindinha (a avó de mamãe) para fazer mais aquele parto. Dindinha morava em Recife, bem longe — ainda mais naqueles tempos — de Rodeador, onde moravam. A bolsa se rompeu durante a viagem de papai e, até que ele chegasse com Dindinha, já haviam se passado 24 horas, por aí. Foi um parto muito difícil e quase que as duas foram ver Deus antes da hora! Mas, no final das contas, acabou que deu certo.

Fecho o parêntesis.

— Mamãe, acho que esse desespero de papai deve ter sido um reflexo do nascimento de Quel. Na hora que a senhorinha falou para ele que estava tendo contrações, um filme inteiro deve ter passado na mente dele.

Mamãe concordou. Ela nunca havia pensado sobre isso. Papai passou 60 anos sendo “o desesperado”. Haha! Descansa em paz, papai. Você só era um homem cauteloso.

Quando papai chegou com Dona Belarmina, mamãe estava saindo do banho.

— Ah, Dona Laodice, pensei que iria encontrá-la na cama...

— Não. Ainda estou tendo contrações. Mas elas estão muito irregulares. Já arrumei a cama do jeito que a minha avó fazia.

Foram conferir.

— Ah, sim. Eu também gosto que arrume assim.

Eu:

— Assim como, mamãe?

— A cama forrada com um lençol limpo e esticado, e mais três lençóis limpos do lado para quando Dindinha precisasse.

— Hmmm... tá. Continue.

Após verificação “da sala de parto”, Dona Belarmina quis examinar mamãe.

— Ah, Dona Laodice, só vai nascer lá pelas duas da tarde!

(Ah, tá... — eu, lá dentro — Vai pensando que sabe das coisas, viu?)

Não demorou muito, e antes de ela sair para cuidar do almoço das suas crianças, mamãe teve outra contração. Opa, opa, opa! Dona Belarmina resolveu aguardar. E foi ficando.

Aqui e ali, papai aparecia para ver como a coisa evoluía.

A manhã já estava acabando e papai foi, então, preparar o almoço das meninas.

— E ele sabia cozinhar, mamãe?

— Sabia. Ele não cozinhava, mas sabia fazer uma comida boa. Ele sabia fazer um lombo...

— Ulha!! Papai mestre-cuca. Quem diria. — Lembrei-me que ele fazia pão.

Contrações vinham, contrações iam. As duas lá, esperando ver o que acontecia.

11h20. Papai, achando que estava tudo muito silencioso, deu as caras:

— E aí?

Dona Belarmina foi fazer um último exame de toque. Mas não com a mão, e sim com a ponta da tesoura. Ah, malvada!

Com muito cuidado, rompeu a bolsa. Bem nesse momento, papai havia chegado:

— E aí?

Aí ele foi ajudar Dona Belarmina, que estava sozinha, pois já tinha experiência de haver participado do nascimento de Quel.

11h30 eu nasci. Aquela história do raio de sol e tudo mais, que já contei antes. Mas nasci com a mão fechada (hmmm... olhaí) levando-a à boca, como quem está com fome (hmmmmmm... eu sabia!).

— Esse menino nasceu na hora do almoço e já com fome! — exclamou mamãe. Na verdade, ela, tal qual Pedro diante da transfiguração, estava embevecida e não sabia direito o que falar, mas falou lá qualquer coisa. Hahaha!

Eu estava era querendo acertar a venta de Dona Belarmina, que havia apressado a minha hora.

Enfim, assim nasci.

Mamãe ainda me contou que Dona Dina, a vizinha, desconfiou que ela estava tendo neném porque mamãe passou a gravidez toda cantando (hmmm... eis aí o porquê de a música estar tão presente em mim) e, subitamente, ela parou de cantar naquela manhã.

Pronto. Foi bem assim que tudo aconteceu.

Ouvido, lido, revisado e registrado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O primeiro choque de realidade

Lalau tinha oito anos.

Era uma menina franzina, alegre, esperta, conversadeira, animada e simpática. E, sobretudo, era crédula. Confiava nas pessoas.

Um dia, estava com uma inflamação na garganta — laringite, talvez. Coisa de criança. Levaram-na ao médico. Não sei quem a levou; ela nunca me contou.

Era a década de 1930, no interior de Pernambuco. Naquele tempo havia uma verdadeira febre de se operar as amígdalas das crianças.

Lalau era a primeira paciente do dia.

Foi amarrada a uma cadeira. A enfermeira segurou-lhe a mão. Ela não achou aquilo estranho. Por que acharia? Era uma menina que confiava nas pessoas.

O médico chegou.

— Abra a boca, Laó.

Ela abriu.

ZAZ!

Num golpe rápido e certeiro, o médico enfiou um instrumento estranho — algo que, muitos anos depois, Lalau descreveu como parecido com aquelas antigas máquinas de cortar cabelo de homem — e...

CLACK!

Decepou uma das amígdalas.

Doeu.

Não foi a maior dor da vida dela, mas doeu. E, sobretudo, ela se sentiu traída.

Não tinha ido ali para aquilo.

O médico olhou para o que havia acabado de arrancar e comentou:

— Mas que droga! Nunca arranquei uma amígdala tão pequena.

Havia ainda a outra.

Lalau, franzina, mas não burra, entendeu perfeitamente o que deveria fazer.

Fechar a boca.

Os olhos, certamente, estavam marejados.

— Abra a boca, Laó.

Ela, de boca cerrada, balançava a cabeça que não.

— Precisa operar a outra amígdala.

A cabeça continuava dizendo que não.

— Abra a boca, Laó.

Não haveria boca aberta.

Lá fora, outras crianças aguardavam sua vez de serem operadas. O médico começava a ficar impaciente. A enfermeira tentava fazê-la abrir a boca.

Até que, de repente, a cena mudou.

O médico ficou terno e bom. Suspendeu a insistência e, resignado, perguntou com voz cordata:

— Está bem. Você não quer que a outra amígdala seja operada, não é?

O meneio da cabeça confirmou aquele jamais infantil.

O médico então sorriu, ou pelo menos foi essa a impressão que passou.

— Então, antes de você ir embora, preciso só abaixar sua língua, está bem?

Diante de uma explicação tão doce e benfazeja, mamãe abriu a boca.

ZAZ!


CLACK!

E foi assim que Lalau voltou para casa sem as amígdalas.

Sem anestesia.

Nem mesmo uma pastilha de menta para aliviar a dor ou o susto.

Anos depois, quando mamãe me contou essa história, eu fiquei boquiaberto e penalizado.

Ela, porém, contava tudo com a melhor das vozes, como se aquilo tivesse acontecido do outro lado do planeta, com outra menina qualquer.

Mas não.

Era ela.

Uma menina de oito anos, franzina, alegre, crédula e esperta, que naquele dia descobriu uma coisa que ainda não sabia:

o mundo podia ser mau.

E talvez tenha sido esse o seu primeiro choque de realidade.