Morávamos no João Paulo II.
Apesar do
"Segundo", ele era o primeiro edifício da rua de onde nossas
caminhadas começavam.
Eu já tinha,
naquela época, uma preocupação recorrente com o corpo. Minha família tinha seu
histórico de sobrepeso, e eu já experimentara de tudo um pouco: dietas, algumas
bastante sensatas, outras completamente piradas, academias e, sobretudo,
caminhadas. Muitas caminhadas.
Os filhos foram
chegando a esse cenário aos poucos. No começo, levá-los comigo era quase um
passeio. Andávamos sem compromisso, conversávamos, parávamos, retomávamos o
passo. Depois, à medida que foram crescendo, o passeio foi ganhando jeito de
caminhada mesmo. Havia um percurso, uma distância, um ritmo e, claro, a hora em
que as pernas começavam a reclamar.
Naquela manhã,
JV estava comigo.
Saíamos de casa
e, descemos a rua e dobramos à direita. Uns quinhentos metros adiante, encontramos
o eucaliptal. O cheiro que vinha das árvores era uma espécie de recarregador
natural. Bastava chegar ali para o corpo parecer esquecer, por alguns minutos,
que ainda havia muita caminhada pela frente.
Depois vinham
as montanhas de brita da estação do metrô que estava sendo construída.
Passávamos por entre elas e seguíamos.
Em algum ponto
do caminho, quando o cansaço já começava a aparecer, eu lançava mão do meu
recurso secreto: chicletes de canela. Eu os levava para esses momentos. Era a
nossa pequena recarga de energia.
JV gostava
deles. Muito.
Talvez por isso
os chicletes também funcionassem como um incentivo bastante eficiente para que
continuasse caminhando comigo.
Depois da
brita, vinha uma descida em direção ao centro de Taguatinga. À esquerda,
tomávamos uma longa reta, quase interminável, com casas de um lado e um bosque
do outro. Ao final dela estava o Hospital de Taguatinga.
Mais uma vez à
esquerda.
Uma pequena
descida.
E então ela
aparecia.
A temida.
A tal.
A subida final.
Naquele dia,
porém, ainda não sabíamos que ela estava prestes a ganhar um nome.
Estávamos ainda
no começo da subida quando dois garotos surgiram lá de cima, descendo de
bicicleta. Vinham embalados. Desciam à toda, aproveitando a inclinação que,
para nós, era justamente o contrário: uma parede a ser vencida.
Passaram por
nós em um átimo.
Um deles, ao
nos ultrapassar, virou-se o suficiente para lançar seu grito:
—
Arrooooooocha, gordão!
Embora ele
tivesse desaparecido ladeira abaixo, pedalando com a mesma disposição com que
havia descido, seu grito continuou ecoando nas nossas cabeças. Fiquei entre
atônito e incrédulo com a inusitada audácia. Como pode?
Eu nem tive
tempo de reagir.
JV teve.
Olhou para mim
e, com a maior naturalidade do mundo, tratou de reparar a injustiça:
— Ele... ele...
ele nem falou com a gente, não é, papai?
Sempre
generoso, esse me filho.
Não me lembro
se continuamos a rir enquanto subíamos. Provavelmente, sim.
Mas me lembro
que, a partir daquele dia, aquela deixou de ser simplesmente a ladeira.
Passou a ser a
Ladeira do Arrocha.
Melhor do que o
novo topônimo foi a descoberta da cumplicidade leal de JV. Por isso, a mera
lembrança da Ladeira do Arrocha continua a me revigorar.
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