segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O nome feio que não virou palavrão


 

Morávamos no João Paulo II.

Apesar do "Segundo", ele era o primeiro edifício da rua de onde nossas caminhadas começavam.

Eu já tinha, naquela época, uma preocupação recorrente com o corpo. Minha família tinha seu histórico de sobrepeso, e eu já experimentara de tudo um pouco: dietas, algumas bastante sensatas, outras completamente piradas, academias e, sobretudo, caminhadas. Muitas caminhadas.

Os filhos foram chegando a esse cenário aos poucos. No começo, levá-los comigo era quase um passeio. Andávamos sem compromisso, conversávamos, parávamos, retomávamos o passo. Depois, à medida que foram crescendo, o passeio foi ganhando jeito de caminhada mesmo. Havia um percurso, uma distância, um ritmo e, claro, a hora em que as pernas começavam a reclamar.

Naquela manhã, JV estava comigo.

Saíamos de casa e, descemos a rua e dobramos à direita. Uns quinhentos metros adiante, encontramos o eucaliptal. O cheiro que vinha das árvores era uma espécie de recarregador natural. Bastava chegar ali para o corpo parecer esquecer, por alguns minutos, que ainda havia muita caminhada pela frente.

Depois vinham as montanhas de brita da estação do metrô que estava sendo construída. Passávamos por entre elas e seguíamos.

Em algum ponto do caminho, quando o cansaço já começava a aparecer, eu lançava mão do meu recurso secreto: chicletes de canela. Eu os levava para esses momentos. Era a nossa pequena recarga de energia.

JV gostava deles. Muito.

Talvez por isso os chicletes também funcionassem como um incentivo bastante eficiente para que continuasse caminhando comigo.

Depois da brita, vinha uma descida em direção ao centro de Taguatinga. À esquerda, tomávamos uma longa reta, quase interminável, com casas de um lado e um bosque do outro. Ao final dela estava o Hospital de Taguatinga.

Mais uma vez à esquerda.

Uma pequena descida.

E então ela aparecia.

A temida.

A tal.

A subida final.

Naquele dia, porém, ainda não sabíamos que ela estava prestes a ganhar um nome.

Estávamos ainda no começo da subida quando dois garotos surgiram lá de cima, descendo de bicicleta. Vinham embalados. Desciam à toda, aproveitando a inclinação que, para nós, era justamente o contrário: uma parede a ser vencida.

Passaram por nós em um átimo.

Um deles, ao nos ultrapassar, virou-se o suficiente para lançar seu grito:

— Arrooooooocha, gordão!

Embora ele tivesse desaparecido ladeira abaixo, pedalando com a mesma disposição com que havia descido, seu grito continuou ecoando nas nossas cabeças. Fiquei entre atônito e incrédulo com a inusitada audácia. Como pode?

Eu nem tive tempo de reagir.

JV teve.

Olhou para mim e, com a maior naturalidade do mundo, tratou de reparar a injustiça:

— Ele... ele... ele nem falou com a gente, não é, papai?

Sempre generoso, esse me filho.

Não me lembro se continuamos a rir enquanto subíamos. Provavelmente, sim.

Mas me lembro que, a partir daquele dia, aquela deixou de ser simplesmente a ladeira.

Passou a ser a Ladeira do Arrocha.

Melhor do que o novo topônimo foi a descoberta da cumplicidade leal de JV. Por isso, a mera lembrança da Ladeira do Arrocha continua a me revigorar.

 

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