sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Quem dá aos pobres...

 


Em 1966, papai estava prestes a entrar no sexto ano de seu pastorado quando, por uma série de motivos, alguns deles bastante intrincados, ficou decidido que a família teria de deixar Rodeador, uma pequena corrutela que se estendia pela beira de um rio, na região rural do município de Salgado de São Félix, na Paraíba.

Iriam para o interior da Bahia.

Mamãe, grávida de três meses, não fazia a menor ideia de onde ficava esse lugar. Tanto que imaginava que viajariam de avião. Coitada! O aeroporto mais próximo ficava na capital.

A viagem, porém, seria bem diferente.

A família teria de fazer todo o percurso de ônibus: de Rodeador a Recife; de Recife a Salvador; e de Salvador até Canal, a pequena vila para onde estavam indo, que tinha menos de dois mil habitantes.

Foram três dias de viagem.

Em 1966 não se viajava à noite como hoje. Quando anoitecia, o ônibus parava e os passageiros precisavam pousar em algum lugar. E houve uma dessas noites em que o lugar era tão sujo que mamãe simplesmente não conseguiu dormir.

Passou a noite sentada.

Papai e as três meninas — Tutinha, com quatro anos; Eva, com três; e Quel, com um ano e meio —, vencidos pelo cansaço, conseguiram dormir. Mamãe, não.

E mesmo sem conseguir dormir, continuou cuidando delas.

Colocou lençóis junto à parede, formando uma proteção para que, enquanto dormissem, as meninas não se encostassem naquela parede imunda.

Era uma mulher grávida de três meses, numa viagem de três dias, com três crianças pequenas, deixando para trás uma vida inteira e indo para um lugar que ela mal sabia onde ficava.

Mas antes de partir havia acontecido uma coisa que, para mim, revela ainda mais profundamente quem era Lalau.

Como a família teria de se desfazer de praticamente tudo, ficaram somente com as roupas. Móveis, panelas, utensílios — tudo teria de ser conseguido novamente na nova morada onde quer que fosse.

Havia, entretanto, uma coisa que mamãe guardara cuidadosamente: todo o enxoval de Quel.

Era assim naquele tempo. A criança seguinte herdaria praticamente tudo da irmã anterior. O enxoval de Quel estava lavado, engomado, passado e guardado para o próximo bebê.

E o próximo bebê já estava a caminho.

Pouco antes da viagem para Recife, quatro mulheres apareceram para fazer uma visita.

As quatro estavam grávidas.

Sem saber que mamãe também estava, perguntaram:

— Dona Laodice, a senhora não teria umas roupinhas para nos dar, de suas gravidezes anteriores?

Eram mulheres muito pobres. Pobres de Jó.

Mamãe poderia ter separado algumas peças. Afinal, estava grávida de três meses e sabia que, dentro de poucos meses, precisaria daquele enxoval. E sabia também que a família estava prestes a começar praticamente tudo de novo.

Mas Lalau deu todo o enxoval.

Tudo.

As roupas estavam cuidadas como se esperassem justamente pelo bebê que ainda viria: lavadas, engomadas e passadas, cheirando a Alfazema, aquela colônia tão comum à época, de líquido esverdeado.

O enxoval foi repartido entre as quatro mulheres.

Dividido por quatro, naturalmente, não sobrava uma grande quantidade para nenhuma delas. Mas foi uma festa.

Para aquelas mulheres, aquelas roupinhas significavam muito.

E mamãe sabia exatamente o que estava fazendo.

Ela sabia que estava grávida.

Sabia que precisaria de outro enxoval.

Sabia que a família teria de conseguir móveis, panelas e tudo o mais para a nova casa.

Sabia que estava indo para uma terra desconhecida.

E, mesmo assim, deu aquilo que havia guardado para a próxima criança que teria e que chegaria dentro em pouco.

Depois disso, a família partiu.

Três dias de ônibus.

Rodeador, Recife, Salvador, Canal.

E, finalmente, chegaram.

Um presbítero da igreja os recebeu, deu as boas-vindas e, naturalmente, perguntou:

— Como foi a viagem?

Depois de três dias de estrada, grávida, com três meninas pequenas, depois de uma noite inteira sentada num lugar onde não conseguiu sequer se deitar...

Lalau só conseguiu responder:

Estou viva.

E estava.

Havia chegado.

Na nova igreja, as mulheres acolheram aquela família que acabava de chegar de tão longe. E, sabendo que Lalau estava grávida, fizeram por ela aquilo que ela havia feito pouco antes por aquelas quatro mulheres na Paraíba.

Deram-lhe todo o enxoval do bebê.

Novo.

Novinho.

Estalando.

Assim, em menos de seis meses, Lalau havia dado o enxoval que guardara para seu próprio filho (eu!) e recebido outro, inteiramente novo, das mulheres da nova igreja.

Mas o que torna essa história grandiosa não é simplesmente o fato de que ela recebeu depois de dar.

É que, quando Lalau deu, ela não sabia que receberia.

Não tinha nenhuma garantia.

Não estava cercada de abundância.

Ao contrário: estava prestes a deixar sua casa, sua comunidade e praticamente todos os seus bens; estava grávida de três meses; tinha três filhas pequenas; viajaria durante três dias de ônibus para uma vila desconhecida no interior da Bahia e teria de começar uma nova vida quase do zero.

Mesmo assim, quando quatro mulheres pobres e grávidas lhe pediram ajuda, Lalau não fez a conta do que precisaria guardar para si.

Ela simplesmente deu.

E talvez seja justamente por isso que essa lembrança, contada por ela quase sessenta anos depois, tenha me impressionado tanto.

Porque naquele gesto aparentemente pequeno — um enxoval de criança, algumas roupinhas, um cheiro de Alfazema — havia uma coisa enorme.

Uma mulher que, mesmo tendo pouco, não era pequena na hora de repartir.

E talvez a resposta tenha vindo sem que ela a procurasse.

Ela deu o enxoval.

Recebeu outro.

Mas o que ela havia revelado naquele primeiro gesto já era dela.

O tamanho do coração de Lalau.

E para fazer jus à fé professada por mamãe (e por mim), concluo este relato com as seguintes palavras de Jesus: 

"[...] deem e lhes será dado; boa medida, prensada, sacudida e transbordante será dada a vocês; porque com a medida com que tiverem medido vocês serão medidos também." (Lucas 6.37 NAA)



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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O nascimento de um raio de sol

 

Setembro chegou.

Barrigão.

— Meu Deus, e essa criança que não nasce?!

Era a quarta gravidez. Mamãe estava cansada. Tinha que cuidar das coisas da casa, de três meninas — de quatro, três e dois anos — e ainda cuidar do marido.

Sertão da Bahia. O oco do mundo, por assim dizer. Afinal, estávamos no ano de 1966, num povoado que não deveria ter nem 1.966 habitantes, sem calçamento, sem asfalto, sem luz... Que fim de mundo era aquele!

Mamãe fora bem recebida lá, em Canal, como se chamava à época. Chegara o reverendo novo, JJ, acompanhado daquela senhora grávida e de três filhas. Eram muito aguardados. Especialmente papai, que cuidaria de duas igrejas ao mesmo tempo, uma distante uma légua da outra.

As senhorinhas do povoado tomaram-se de amores por mamãe. Compadecidas? Também. Além de compaixão, mamãe despertava amores. todo o ciúme de papai não deveria ser uma obra do acaso.

A casa era grande. Piso de ladrilhos (chamava-se piso de mosaico). Daqueles antigos. Os tetravôs do porcelanato que hoje se usa em casas de granfinos.

— Essa criança está demorando! Ah, mas de hoje não passa... — pensou mamãe.

Sim, ela me contou assim.

Começou a arrumar a casa.

Encheu duas latas de água. Uma com sabão — detergente ou sei lá o quê — e outra só com água mesmo.

Detalhe: na casa não havia água encanada. Toda água era buscada num poço que ficava na praça da casa em que eles moravam.

Casa varrida e arrumada. Hora de passar pano.

Se tudo saísse conforme o planejamento daquela mãe de três crianças, a quarta chegaria ainda pela manhã.

— Darling — assim eles se chamavam um ao outro —, lá pras dez horas vá chamar Dona Belarmina!

Então ela foi posicionar estrategicamente as latas para começar a limpeza do chão.

Silêncio na casa.

Ela chegou-se para olhar pela janela.

Lá ia Darling, já dobrando a esquina.

Não. Ainda era muito antes das dez horas.

Ô homem avexado!

Bom, mamãe foi limpar o quarto.

Com aquele barrigão, não conseguia ficar muito tempo em pé. Sentou-se ao chão. Da lata de água com sabão ela tirava o pano e limpava o chão. Torcia e o punha de volta naquela lata.

Da outra, que só tinha água, ela tirava um pano, limpava a área, como que enxaguando, torcia de volta o pano e o colocava de volta na lata.

Ladrilho por ladrilho.

Fileira por fileira.

Arrastando-se sentada pelo chão.

— Dona Laodice, tudo bem? Reverendo foi me chamar... A senhora... o que a senhora está fazendo? Pensei que estivesse em trabalho de parto.

— Dona Belarmina, eu estou limpando a casa. Mas acho que vai nascer hoje...

(Claro que iria! A danada estava dando seu jeito...)

— Vamos examinar?

Depois do exame:

— Ah, não é pra agora. Antes do meio-dia eu passo por aqui.

— Então está certo.

...

— Oxente, Darling, eu falei que era pra chamar depois das dez...

— Ah, pensei que já estava nascendo.

Mamãe voltou aos seus ladrilhos.

🎵Leiê, leiê,🎶leiê, leiê, leiê... 🎶

Limpa daqui, limpa dali, levanta uma cadeira aqui, arrasta uma poltrona acolá, tira pano, torce pano, ladrilho, ladrilho, mais outra fila de ladrilhos...

Casa limpa!

Tudo preparado.

Chega Dona Belarmina.

— Ah, acho que vai ser por agora mesmo. Vamos ferver água.

Chaleiras ao fogo.

Toalhas na bacia.

Quarto pronto.

Janelas e cortinas fechadas para não entrar nem poeira e nem friagem.

Foram-se para o quarto.

Não sei se houve alguma auxiliar de parto.

Detalhes me foram poupados.

Só sei que, quando nasci, Dona Belarmina falou:

— É um menino!

Então veio aquela frase inaudita que entrou para a história da família.

Nasceu meu raio de sol!


Era 15 de setembro de 1966, 11h30. Nasci com um pouco mais de 4kg. Esfomeado. Talvez por causa da hora: do almoço. Segundo mamãe, 'comendo a mão'.

Papai foi comunicado.

E essa é a verdadeira história do meu nascimento, contada a mim por mamãe.

Agora, se quiser saber a minha própria versão dessa história (um tanto apócrifa, mas realmente boa), clique aqui

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O nome feio que não virou palavrão


 

Morávamos no João Paulo II.

Apesar do "Segundo", ele era o primeiro edifício da rua de onde nossas caminhadas começavam.

Eu já tinha, naquela época, uma preocupação recorrente com o corpo. Minha família tinha seu histórico de sobrepeso, e eu já experimentara de tudo um pouco: dietas, algumas bastante sensatas, outras completamente piradas, academias e, sobretudo, caminhadas. Muitas caminhadas.

Os filhos foram chegando a esse cenário aos poucos. No começo, levá-los comigo era quase um passeio. Andávamos sem compromisso, conversávamos, parávamos, retomávamos o passo. Depois, à medida que foram crescendo, o passeio foi ganhando jeito de caminhada mesmo. Havia um percurso, uma distância, um ritmo e, claro, a hora em que as pernas começavam a reclamar.

Naquela manhã, JV estava comigo.

Saíamos de casa e, descemos a rua e dobramos à direita. Uns quinhentos metros adiante, encontramos o eucaliptal. O cheiro que vinha das árvores era uma espécie de recarregador natural. Bastava chegar ali para o corpo parecer esquecer, por alguns minutos, que ainda havia muita caminhada pela frente.

Depois vinham as montanhas de brita da estação do metrô que estava sendo construída. Passávamos por entre elas e seguíamos.

Em algum ponto do caminho, quando o cansaço já começava a aparecer, eu lançava mão do meu recurso secreto: chicletes de canela. Eu os levava para esses momentos. Era a nossa pequena recarga de energia.

JV gostava deles. Muito.

Talvez por isso os chicletes também funcionassem como um incentivo bastante eficiente para que continuasse caminhando comigo.

Depois da brita, vinha uma descida em direção ao centro de Taguatinga. À esquerda, tomávamos uma longa reta, quase interminável, com casas de um lado e um bosque do outro. Ao final dela estava o Hospital de Taguatinga.

Mais uma vez à esquerda.

Uma pequena descida.

E então ela aparecia.

A temida.

A tal.

A subida final.

Naquele dia, porém, ainda não sabíamos que ela estava prestes a ganhar um nome.

Estávamos ainda no começo da subida quando dois garotos surgiram lá de cima, descendo de bicicleta. Vinham embalados. Desciam à toda, aproveitando a inclinação que, para nós, era justamente o contrário: uma parede a ser vencida.

Passaram por nós em um átimo.

Um deles, ao nos ultrapassar, virou-se o suficiente para lançar seu grito:

— Arrooooooocha, gordão!

Embora ele tivesse desaparecido ladeira abaixo, pedalando com a mesma disposição com que havia descido, seu grito continuou ecoando nas nossas cabeças. Fiquei entre atônito e incrédulo com a inusitada audácia. Como pode?

Eu nem tive tempo de reagir.

JV teve.

Olhou para mim e, com a maior naturalidade do mundo, tratou de reparar a injustiça:

— Ele... ele... ele nem falou com a gente, não é, papai?

Sempre generoso, esse meu filho.

Não me lembro se continuamos a rir enquanto subíamos. Provavelmente, sim.

Mas me lembro que, a partir daquele dia, aquela deixou de ser simplesmente a ladeira.

Passou a ser a Ladeira do Arrocha.

Melhor do que o novo topônimo foi a descoberta da cumplicidade leal de JV. Por isso, a mera lembrança da Ladeira do Arrocha continua a me revigorar.






Ideias organizadas com suporte de IA e rigorosamente revisadas por mim. Conteúdo e voz autoral estritamente meus.

domingo, 9 de agosto de 2026

Os pais e os filhos que encontrei num filme



Não sei exatamente quando João José foi ficando sisudo. Sei que não era assim quando o conheci. Conheci antes o homem brincalhão, o contador de histórias de terror para a meninada da rua, o contador das histórias que provavelmente recebera de sua própria mãe, o homem capaz de me encomendar um caminhão de madeira. Depois, em algum ponto da minha infância, ele foi mudando. Tornou-se severo, sisudo, pesado. Talvez as circunstâncias tenham feito isso com ele. Algumas eu conheço. Outras, nunca conheci. Há coisas que meu pai não contou a ninguém e que foram embora com ele. Nós, homens, temos nossos próprios segredos.


Foi muitos anos depois, já homem feito, que um filme me fez voltar a meu pai.

Eu assistia a Gonzaga: De Pai para Filho, a história de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Seir estava ao meu lado.

E eu chorei.

Chorei praticamente o filme inteiro.

Na verdade, chorei antes mesmo de entender por quê.

A cada tentativa de aproximação de Luiz Gonzaga com o filho, eu chorava. A cada tentativa de Gonzaguinha de se aproximar do pai, eu chorava também. Não era apenas a história deles que estava diante de mim. Era como se, em cada uma daquelas cenas, alguma coisa da minha própria história se levantasse e dissesse: “Olha aqui.”

Gonzaguinha queria o pai.

Eu conhecia aquela falta.

Eu havia tido um pai. Meu pai estivera ali. Mas, durante boa parte da minha segunda infância e chegando à adolescência, nós não fomos próximos. Não éramos amigos. Nosso contato acontecia muito em torno da fé: cultos domésticos, cultos nas casas, cultos na igreja. Havia também as idas à feira, quando eu o acompanhava nas compras de verduras, frutas, carne e outras coisas que, naquele tempo, ainda não se encontravam facilmente em supermercados.

Mas não havia brincadeiras.

Não havia a bola.

Não havia a ida à padaria para comprar pão e, já que estávamos ali, tomar um café juntos.

Não havia aquela companhia desnecessária, gratuita, sem finalidade alguma — aquela companhia que talvez seja uma das formas mais simples de amor entre um pai e um filho.

E, enquanto eu assistia ao filme, fui lembrando do meu pai.

Do pai que eu conhecera antes.

Do homem que contava histórias de terror para a meninada da rua. Das histórias que provavelmente havia recebido de sua própria mãe. Do homem que podia entrar no universo de uma criança e me encomendar, com toda a seriedade do mundo, um caminhão de madeira.

E fui lembrando também do homem em que ele havia se transformado.

Meu pai nasceu em 1918. Entre nós havia 48 anos e meio de diferença. Quando ele tinha cinquenta anos, não me parecia nem de longe com o que eu sou aos sessenta. Papai já era, aos meus olhos, um senhor. Um idoso.

Talvez por isso eu tenha demorado tanto a perceber que havia ali, antes daquele homem severo e sisudo, outro João José.

Um homem que talvez tenha se cansado.

Ele passou um longo período doente. Hoje penso que talvez estivesse também emocionalmente esgotado. Havia uma época em que seus remédios ocupavam praticamente uma caixa de sapatos inteira. Tinha insônia. Tinha medos. Não gostava de ficar acordado sozinho e, quando minha mãe dormia, resmungava que ela não estava nem aí para ele, que não se importava se ele não estava bem.

Coitados.

Cada um a seu modo.

Meu pai também era um pastor tipo Bombril. Mil e uma utilidades. Havia sempre alguma coisa para fazer, alguém para visitar, algum culto, alguma responsabilidade, alguma necessidade. E, quando ele estava em casa, o ambiente muitas vezes ficava pesado.

Mas eu não consigo olhar para tudo isso hoje e simplesmente dizer: “Meu pai era assim.”

Não.

Meu pai havia se tornado assim.

E talvez essa diferença seja uma das coisas que só consigo perceber agora.

Houve um dia, não sei quantos anos eu tinha, em que papai me abraçou.

Eu chorei.

Ele perguntou por que eu estava chorando.

Eu não soube responder.

Talvez o menino também não soubesse.

Talvez ele apenas tivesse encontrado, de repente, uma coisa que lhe fazia falta e que ele não sabia que lhe fazia falta.


Quando me tornei pai, fiz questão de fazer diferente.

Brinquei com meus filhos. Rolei no chão. Pintei e bordei. Carreguei na cacunda. Fui ao supermercado. Fui à padaria. Fui ao shopping. Joguei um pouco de bola — embora eu nunca tenha sido muito de bola, talvez justamente porque nunca aprendi a sê-lo.

Eu os abracei muito.

Cheirei muito meus filhos.

Beijei muito meus filhos.

Disse muitas vezes que os amava.

Eu tinha um conceito bastante alto de mim mesmo como pai. Acho que ainda tenho.

Mas hoje consigo reconhecer uma coisa que naquele tempo eu talvez não percebesse: eu estava fazendo duas coisas ao mesmo tempo.

Estava sendo pai deles.

E estava, de algum modo, reparando em mim mesmo.

Tentava oferecer a eles aquilo que eu gostaria de ter recebido de meu pai. E, ao oferecer aquilo a eles, alguma coisa em mim também era cuidada.

Eu estava reparando duas coisas ao mesmo tempo.


Então a vida fez uma coisa particularmente cruel.

Eu me tornei pai justamente tentando ser um pai muito presente. E, de repente, fui privado da proximidade com meus filhos.

A separação foi inesperada. Para mim e para os três.

Houve o choque de descobertas inesperadas, a ruptura, a casa que passei a administrar sozinho, as aulas que continuavam, o coral da igreja, a cantata de Natal, a necessidade de continuar funcionando enquanto minha vida parecia ter perdido o eixo.

Houve até a humilhação íntima de preencher formulários e precisar marcar a palavra “divorciado”.

Uma vez chorei numa repartição pública fazendo isso.

Eu era separado.

Como aquilo tinha acontecido?

Havia também o olhar das pessoas. Às vezes de compaixão. Às vezes de julgamento. E houve ainda uma outra relação, rápida e intensa, que quase se transformou em casamento quatro meses depois da separação e que também não deu certo.

Mas havia uma dor que, naquele momento, parecia ainda mais funda: a distância dos meus filhos.

Eles se recolheram. Talvez, hoje penso, para não tomar partido. Talvez também para viverem as próprias dores que uma separação dos pais necessariamente inflige.

Naquele tempo, porém, eu não conseguia enxergar assim.

Eu tinha tantos buracos emocionais que o distanciamento deles era mais um.

Eu me sentia — e uso aqui uma palavra forte porque era assim que eu sentia — orfanado de filhos.

Meu Deus.

Que dor.

Eu queria meus filhos perto.

Muito.

E então eu estava diante de Gonzaguinha.

Ele queria o pai.

Muito.

E, do outro lado, Gonzagão queria chegar ao filho.

Muito.

Foi aí que meu Gonzagão e meu Gonzaguinha começaram a se encontrar.

Repetidas vezes.

Durante todo o filme.

E eu chorava.

Chorava pelo meu pai.

Chorava pelos meus filhos.

E, em algum lugar entre os dois, chorava por mim.


Acho que foi uma espécie de catarse.

Não no sentido rigoroso que a palavra possa ter na psicologia, mas naquele sentido em que a usamos no cotidiano: alguma coisa se abriu e uma quantidade enorme de emoção saiu de uma vez.

Ou talvez tenham sido duas catarse.

Uma para trás.

Outra para a frente.

Para trás, o filho que eu havia sido encontrava o pai que tivera.

Para a frente, o pai que eu havia me tornado encontrava os filhos que não conseguia alcançar.

E as duas coisas se encontravam dentro de mim.

Quando o filme acabou, eu estava num verdadeiro fosso emocional.

Seir estava ao meu lado.

E não sabia muito bem o que estava acontecendo comigo.

Ela não sabia que eu não estava chorando apenas por Gonzaga e Gonzaguinha.

Não sabia que, naquela sala de cinema, meu pai havia voltado.

Não sabia que meus filhos também haviam voltado.

Não sabia que eu estava, de certo modo, encontrando os dois ao mesmo tempo.

Mas ela fez uma coisa muito simples.

Ela ouviu.


Depois do filme, fomos a um restaurante.

Conversamos durante o caminho. E, à medida que falava, fui conseguindo elaborar aquilo que havia acontecido.

Seir foi uma ótima ouvinte.

Ela continua a sê-lo.

Ela acolhe.

No restaurante, estávamos sentados numa mesa quadrada. Não um de frente para o outro. Estávamos em lados contíguos.

Ela, à minha esquerda.

Entre conversas, desabafos, proximidades, nossos rostos ficaram muito próximos.

Eu a beijei. Foi nosso primeiro beijo.

E, então, comprometemo-nos ali.

Para a vida.


Talvez eu só tenha conseguido compreender plenamente aquela noite muitos anos depois.

O filme não me contou uma história sobre meu pai.

Contou-me a história de dois homens, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e me ofereceu uma chave para olhar novamente para um terceiro: João José.

E, olhando para ele outra vez, percebo que meu pai não foi apenas o homem de quem senti falta.

Ele foi também o menino que provavelmente teve suas próprias faltas.

Foi o filho de alguém de quem falava com ternura e admiração.

Foi o homem brincalhão que conheci primeiro.

Foi o contador de histórias.

Foi o homem que depois se tornou severo, sisudo, pesado.

Foi o pastor sobrecarregado.

Foi o homem dos muitos remédios, da insônia e dos medos.

Foi o marido que precisava de minha mãe por perto quando a noite ficava grande demais.

Foi meu pai.

E há coisas que eu ainda não sei sobre ele.

Talvez nunca saiba.

Há coisas que ele não contou a ninguém e que foram embora com ele.

Nós, homens, temos nossos próprios segredos.

Hoje não preciso escolher entre a falta que senti e a compaixão que consigo sentir por ele.

As duas coisas cabem na mesma memória.

Posso reconhecer que queria um pai que brincasse comigo e, ao mesmo tempo, lembrar com ternura do homem que me contou histórias.

Posso lamentar as brincadeiras que não tivemos e guardar com carinho o abraço que um dia ele me deu.

Posso reconhecer o pai que ele não conseguiu ser para mim e também reconhecer o homem que talvez tenha feito o melhor que conseguiu com os recursos que tinha, com os pesos que carregava e com os mistérios que nunca conheci.

E talvez seja isso que aquele filme tenha feito por mim.

Não reconciliou o que não aconteceu.

Não inventou uma infância diferente.

Não apagou a falta.

Apenas me permitiu olhar para meu pai sem enxergá-lo somente através daquilo que me faltou.

E talvez haja nisso uma forma tardia de encontro.

Porque meu pai se foi há muitos anos.

Meus filhos cresceram.

E eu sigo carregando os dois lados da história dentro de mim: o filho que fui e o pai que me tornei.

Quando penso nisso tudo, volto àquele menino que chorou depois de receber um abraço do pai e não soube dizer por quê.

Hoje talvez eu possa responder por ele.

Talvez ele tenha chorado porque, por um instante, o pai que ele queria e o pai que tinha se encontraram.

E talvez seja por isso que, tantos anos depois, diante de um filme sobre outro pai e outro filho, eu tenha chorado novamente.

Só que, daquela vez, havia uma mulher sentada ao meu lado.

E, sem que nenhum de nós soubesse ainda, enquanto eu chorava pelos homens que haviam marcado minha vida, a minha própria história estava começando outra vez.



Ideias organizadas com suporte de IA e rigorosamente revisadas por mim. Conteúdo e voz autoral estritamente meus.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A Audição sem audiência



Minha próstata resolveu disputar uma olimpíada.

Sem me consultar, naturalmente.

Sem pedir autorização.

Simplesmente decidiu que era hora de mostrar do que era capaz.

Talvez quisesse ser a mais forte, a mais varonil, a mais musculosa, a maior de todas.

Não sei.

O fato é que adquiriu vida própria.

Durante anos, subiu ao pódio da hiperplasia prostática benigna.

Ano após ano.

O quadro de medalhas na parede provava o esforço em se superar.

Mas chegou um momento em que eu disse:

— Chega. Você já provou o que precisava provar. Está na hora de se aposentar.

Foram dez anos até a cirurgia.

Dez anos de acompanhamento.

Oito deles com meu querido amigo, o doutor Dídimo Teles, urologista em Brasília e professor da Universidade de Brasília por muitos anos.

Ele conhecia o meu caso.

Sabia que não era câncer.

Por isso, durante muito tempo, preferiu que eu aguardasse.

O problema é que eu carregava uma história familiar pesada.

Havia muitos casos de câncer na minha família materna.

Somados ao histórico do lado paterno, esses relatos formavam, na minha cabeça, um mapa de risco.

Eu sabia que existiam histórias de doenças que atravessavam gerações, e aquilo me assustava.

Então, quando meu PSA começou a subir, eu não enxergava possibilidades.

Eu enxergava uma sentença.

Eu havia esquecido completamente que o caso do meu pai era HPB.

Eu só via o câncer.

Cheguei ao consultório do doutor Dídimo carregando comigo uma certeza:

“Tenho câncer.”

Não era apenas a saúde.

Era também o final traumático do meu primeiro casamento, uma fase em que eu estava emocionalmente muito fragilizado.

Eu estava tenso.

Nervoso.

Assustado.

E ele percebeu.

As primeiras consultas foram inesquecíveis.

Não foram apenas consultas médicas.

Foram aulas.

Anatomia.

Fisiologia.

Explicações.

Conversa.

Calma.

Ao final de cada encontro, quando percebia que minha respiração já estava diferente, que meus braços já não estavam cruzados, que o suor havia diminuído, ele perguntava:

— Podemos fazer o exame agora?

Depois vinha sua avaliação:

— João, vamos confirmar com os exames de sangue, mas, pelo que consegui palpar, não há endurecimento, não há alteração preocupante na textura. Ela está aumentada, mas não há motivo para esse desespero.

E assim ele foi, aos poucos, devolvendo o tamanho real das coisas.

Quando o PSA ficou realmente mais alto, ele pediu uma ressonância magnética com contraste.

Eu nunca havia feito uma.

Se o doutor Dídimo pediu, pensei:

“É porque deve ser o exame certo.”

Ele recomendou a clínica.

Fiz a marcação por telefone.

O atendente confirmou tudo:

dia,

hora,

local,

preparativos.

Tudo certo.

Já estava encerrando a ligação quando ele se lembrou de uma pergunta:

— O senhor tem claustrofobia?

— Não.

— Ah, então está tudo bem.

Silêncio.

— Só um minuto, por favor.

— Pois não?

— Por que você me perguntou se eu tenho claustrofobia?

— Ah… é porque o exame é feito dentro de um tubo. Mas, no seu caso, não terá problema algum.

Click.

Fim da ligação.

E eu fiquei com uma única informação:

“Como assim dentro de um tubo?”

Cheguei ao dia do exame tenso.

Fiz a entrevista.

Recebi as orientações.

Tirei a roupa.

Seriam quarenta a quarenta e cinco minutos:

Primeiro a ressonância sem contraste.

Depois o contraste.

Depois uma nova sequência.

Todos foram extremamente gentis.

Chegou a hora.

Deitei na maca.

Braço direito acima da cabeça para o acesso do contraste.

O corpo entraria inteiro no aparelho.

Na mão esquerda, o botão de emergência.

“Se precisar, aperte.”

Foi colocado sobre minha barriga um “travesseiro”.

Um peso de aproximadamente cento e vinte quilos.

Pelo menos era essa a sensação.

A função era evitar movimentos.

Eu deveria respirar calmamente.

A sala ficou escura.

Só a luz da máquina permanecia acesa.

E estava frio.

Muito frio.

Um frio concreto, de sala de exame.

Pelo autofalante da sala, escutei:

— Seu João, vamos começar o exame. Se puder respirar mais calmamente, melhor, para não precisarmos parar e recomeçar todo o processo novamente. Vai dar tudo certo.

Alguns segundos.

Eternos.

De repente, o barulho da máquina ligando.

“Meu Deus, me ajude.”

“Eu não sou claustrofóbico.”

“Meu Deus… e se houver um terremoto e esse prédio cair, e eu aqui dentro dessa máquina?”

“Deus me ajude.”

Então começou.

A barulheira.

Uma barulheira infernal.

Minha ansiedade foi de zero a mil em milésimos de segundos.

A mão segurava o botão.

“Eu quero sair daqui.”

Minha respiração ficou ofegante.

O barulho mudava.

As pancadas mudavam.

A maca se deslocava um pouco mais para dentro.

Eu estava de olhos fechados desde o início.

E então aconteceu.

De repente.

Não mais que de repente.

No meio de todos aqueles sons absurdamente altos, minha mente percebeu uma sequência.

Uma sequência harmônica.

“Acordes.”

“São acordes.”

“Eu consigo perceber acordes.”

Eu estava tentando me lembrar de algum salmo para me acalmar.

E veio o Salmo 1:

“Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios…”

Então veio o pensamento:

“Mas esse não é o hino número 1 do Hinário Salmos e Hinos?”

Comecei a cantá-lo mentalmente.

Quando terminou, veio outro hino:

“Divino Salvador.”

Depois outro.

E outro.

E outro.

Os hinos continuaram vindo.

Todos cantados mentalmente.

Nenhuma voz saiu da minha boca.

Nenhum ouvido além do meu os ouviu.

O som da máquina continuava.

Mas agora havia música.

À medida que o tom mudava, eu modulava o hino da vez.

A máquina fazia o seu trabalho.

E eu fazia o meu.

Cantava.

Quanto mais eu cantava, mais relaxado ficava.

Até que me assustei ao ouvir pelo alto-falante:

— Seu João, acabou.

Não sei dizer em que altura dos 604 hinos do Hinário Salmos e Hinos eu dormi.

Só sei que dormi.

Dentro do tubo.

Mais tarde, pensando naquela experiência, entendi de onde vinha aquela capacidade de encontrar música no meio do ruído.

Vinha de muitos anos antes.

Vinha de uma casa onde poesia era falada, a Bíblia era decorada e música fazia parte da rotina.

Vinha dos cultos domésticos conduzidos por meu pai.

Vinha dos hinos cantados tantas vezes.

Vinha das vozes da minha família.

Mas, naquele momento, dentro daquela máquina, eu não pensei em nada disso.

Eu apenas ouvi.

E cantei.

Aquelas experiências haviam deixado algo guardado.

Uma reserva.

Uma linguagem.

Uma música esperando a hora certa.

Naquele dia, a ressonância procurava imagens do meu corpo.

Mas acabou revelando outra coisa:

havia música guardada dentro de mim.

Minha próstata resolveu disputar uma olimpíada.

Treinou por anos.

Ganhou volume.

Preparou-se para a grande competição.

Só não contava com um detalhe:

seria desclassificada antes mesmo da prova.

No fim, não ganhou medalha alguma.

Mas conseguiu algo que jamais imaginou.

Levou-me a uma audição sem plateia.


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