terça-feira, 11 de agosto de 2026

O nascimento de um raio de sol

 

Setembro chegou.

Barrigão.

— Meu Deus, e essa criança que não nasce?!

Era a quarta gravidez. Mamãe estava cansada. Tinha que cuidar das coisas da casa, de três meninas — de quatro, três e dois anos — e ainda cuidar do marido.

Sertão da Bahia. O oco do mundo, por assim dizer. Afinal, estávamos nos idos de 1966, num povoado que não deveria ter nem 1.966 habitantes, sem calçamento, sem asfalto, sem luz... Que fim de mundo era aquele!

Mamãe fora bem recebida lá, em Canal, como se chamava à época. Chegara o reverendo novo, JJ, acompanhado daquela senhora grávida e de três filhas. Eram muito aguardados. Especialmente papai, que cuidaria de duas igrejas ao mesmo tempo, uma distante uma légua da outra.

As senhorinhas do povoado tomaram-se de amores por mamãe. Compadecidas? Também. Além de compaixão, mamãe despertava amores. O ciúme de papai não deveria ser uma obra do acaso.

A casa era grande. Piso de ladrilhos. Daqueles antigos. Os tetravôs do porcelanato que hoje se usa em casas de granfinos.

— Essa criança está demorando! Ah, mas de hoje não passa... — pensou mamãe.

Sim, ela me contou assim.

Começou a arrumar a casa.

Encheu duas latas de água. Uma com sabão — detergente ou sei lá o quê — e outra só com água mesmo.

Detalhe: na casa não havia água encanada. Toda água era buscada num poço que ficava na praça da casa em que eles moravam.

Casa varrida e arrumada. Hora de passar pano.

Se tudo saísse conforme o planejamento daquela mãe de três crianças, a quarta chegaria ainda pela manhã.

— Darling — assim eles se chamavam um ao outro —, lá pras dez horas vá chamar Dona Belarmina!

Então ela foi posicionar estrategicamente as latas para começar a limpeza do chão.

Silêncio na casa.

Ela chegou-se para olhar pela janela.

Lá ia Darling, já dobrando a esquina.

Não. Ainda era muito antes das dez horas.

Ô homem avexado!

Bom, mamãe foi limpar o quarto.

Com aquele barrigão, não conseguia ficar muito tempo em pé. Sentou-se ao chão. Da lata de água com sabão ela tirava o pano e limpava o chão. Torcia e o punha de volta naquela lata.

Da outra, que só tinha água, ela tirava um pano, limpava a área, como que enxaguando, torcia de volta o pano e o colocava de volta na lata.

Ladrilho por ladrilho.

Fileira por fileira.

Arrastando-se sentada pelo chão.

— Dona Laodice, tudo bem? Reverendo foi me chamar... A senhora... o que a senhora está fazendo? Pensei que estivesse em trabalho de parto.

— Dona Belarmina, eu estou limpando a casa. Mas acho que vai nascer hoje...

Claro que iria! A danada estava dando seus pulos...

— Vamos examinar?

Depois do exame:

— Ah, não é pra agora. Antes do meio-dia eu passo por aqui.

— Então está certo.

...

— Oxente, Darling, eu falei que era pra chamar depois das dez...

— Ah, pensei que já estava nascendo.

Mamãe voltou aos seus ladrilhos.

🎵Leiê, leiê,🎶leiê, leiê, leiê... 🎶

Lima daqui, limpa dali, levanta uma cadeira aqui, arrasta uma poltrona acolá, tira pano, torce pano, ladrilho, ladrilho, mais outra fila de ladrilhos...

Casa limpa!

Tudo preparado.

Chega Dona Belarmina.

— Ah, acho que vai ser por agora mesmo. Vamos ferver água.

Chaleiras ao fogo.

Toalhas na bacia.

Quarto pronto.

Janelas e cortininhas fechadas para não entrar nem poeira e nem friagem.

Foram-se para o quarto.

Não sei se houve alguma auxiliar de parto.

Detalhes me foram poupados.

Só sei que, quando nasci, Dona Belarmina falou:

— É um menino!

Então veio aquela frase inaudita que entrou para a história da família.

Nasceu meu raio de sol!


Era 15 de setembro de 1966.

Papai foi comunicado.

E essa é a verdadeira história do meu nascimento, contada a mim por mamãe.

Agora, se quiser saber a minha própria versão dessa história (um tanto apócrifa, mas realmente boa), clique aqui

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