Não sei exatamente quando João José foi ficando sisudo. Sei que não era assim quando o conheci. Conheci antes o homem brincalhão, o contador de histórias de terror para a meninada da rua, o contador das histórias que provavelmente recebera de sua própria mãe, o homem capaz de me encomendar um caminhão de madeira. Depois, em algum ponto da minha infância, ele foi mudando. Tornou-se severo, sisudo, pesado. Talvez as circunstâncias tenham feito isso com ele. Algumas eu conheço. Outras, nunca conheci. Há coisas que meu pai não contou a ninguém e que foram embora com ele. Nós, homens, temos nossos próprios segredos.
Foi muitos anos depois, já homem feito, que um filme me fez voltar a meu pai.
Eu assistia a Gonzaga: De Pai para Filho, a história de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Seir estava ao meu lado.
E eu chorei.
Chorei praticamente o filme inteiro.
Na verdade, chorei antes mesmo de entender por quê.
A cada tentativa de aproximação de Luiz Gonzaga com o filho, eu chorava. A cada tentativa de Gonzaguinha de se aproximar do pai, eu chorava também. Não era apenas a história deles que estava diante de mim. Era como se, em cada uma daquelas cenas, alguma coisa da minha própria história se levantasse e dissesse: “Olha aqui.”
Gonzaguinha queria o pai.
Eu conhecia aquela falta.
Eu havia tido um pai. Meu pai estivera ali. Mas, durante boa parte da minha segunda infância e chegando à adolescência, nós não fomos próximos. Não éramos amigos. Nosso contato acontecia muito em torno da fé: cultos domésticos, cultos nas casas, cultos na igreja. Havia também as idas à feira, quando eu o acompanhava nas compras de verduras, frutas, carne e outras coisas que, naquele tempo, ainda não se encontravam facilmente em supermercados.
Mas não havia brincadeiras.
Não havia a bola.
Não havia a ida à padaria para comprar pão e, já que estávamos ali, tomar um café juntos.
Não havia aquela companhia desnecessária, gratuita, sem finalidade alguma — aquela companhia que talvez seja uma das formas mais simples de amor entre um pai e um filho.
E, enquanto eu assistia ao filme, fui lembrando do meu pai.
Do pai que eu conhecera antes.
Do homem que contava histórias de terror para a meninada da rua. Das histórias que provavelmente havia recebido de sua própria mãe. Do homem que podia entrar no universo de uma criança e me encomendar, com toda a seriedade do mundo, um caminhão de madeira.
E fui lembrando também do homem em que ele havia se transformado.
Meu pai nasceu em 1918. Entre nós havia 48 anos e meio de diferença. Quando ele tinha cinquenta anos, não me parecia nem de longe com o que eu sou aos sessenta. Papai já era, aos meus olhos, um senhor. Um idoso.
Talvez por isso eu tenha demorado tanto a perceber que havia ali, antes daquele homem severo e sisudo, outro João José.
Um homem que talvez tenha se cansado.
Ele passou um longo período doente. Hoje penso que talvez estivesse também emocionalmente esgotado. Havia uma época em que seus remédios ocupavam praticamente uma caixa de sapatos inteira. Tinha insônia. Tinha medos. Não gostava de ficar acordado sozinho e, quando minha mãe dormia, resmungava que ela não estava nem aí para ele, que não se importava se ele não estava bem.
Coitados.
Cada um a seu modo.
Meu pai também era um pastor tipo Bombril. Mil e uma utilidades. Havia sempre alguma coisa para fazer, alguém para visitar, algum culto, alguma responsabilidade, alguma necessidade. E, quando ele estava em casa, o ambiente muitas vezes ficava pesado.
Mas eu não consigo olhar para tudo isso hoje e simplesmente dizer: “Meu pai era assim.”
Não.
Meu pai havia se tornado assim.
E talvez essa diferença seja uma das coisas que só consigo perceber agora.
Houve um dia, não sei quantos anos eu tinha, em que papai me abraçou.
Eu chorei.
Ele perguntou por que eu estava chorando.
Eu não soube responder.
Talvez o menino também não soubesse.
Talvez ele apenas tivesse encontrado, de repente, uma coisa que lhe fazia falta e que ele não sabia que lhe fazia falta.
Quando me tornei pai, fiz questão de fazer diferente.
Brinquei com meus filhos. Rolei no chão. Pintei e bordei. Carreguei na cacunda. Fui ao supermercado. Fui à padaria. Fui ao shopping. Joguei um pouco de bola — embora eu nunca tenha sido muito de bola, talvez justamente porque nunca aprendi a sê-lo.
Eu os abracei muito.
Cheirei muito meus filhos.
Beijei muito meus filhos.
Disse muitas vezes que os amava.
Eu tinha um conceito bastante alto de mim mesmo como pai. Acho que ainda tenho.
Mas hoje consigo reconhecer uma coisa que naquele tempo eu talvez não percebesse: eu estava fazendo duas coisas ao mesmo tempo.
Estava sendo pai deles.
E estava, de algum modo, reparando em mim mesmo.
Tentava oferecer a eles aquilo que eu gostaria de ter recebido de meu pai. E, ao oferecer aquilo a eles, alguma coisa em mim também era cuidada.
Eu estava reparando duas coisas ao mesmo tempo.
Então a vida fez uma coisa particularmente cruel.
Eu me tornei pai justamente tentando ser um pai muito presente. E, de repente, fui privado da proximidade com meus filhos.
A separação foi inesperada. Para mim e para os três.
Houve o choque de descobertas inesperadas, a ruptura, a casa que passei a administrar sozinho, as aulas que continuavam, o coral da igreja, a cantata de Natal, a necessidade de continuar funcionando enquanto minha vida parecia ter perdido o eixo.
Houve até a humilhação íntima de preencher formulários e precisar marcar a palavra “divorciado”.
Uma vez chorei numa repartição pública fazendo isso.
Eu era separado.
Como aquilo tinha acontecido?
Havia também o olhar das pessoas. Às vezes de compaixão. Às vezes de julgamento. E houve ainda uma outra relação, rápida e intensa, que quase se transformou em casamento quatro meses depois da separação e que também não deu certo.
Mas havia uma dor que, naquele momento, parecia ainda mais funda: a distância dos meus filhos.
Eles se recolheram. Talvez, hoje penso, para não tomar partido. Talvez também para viverem as próprias dores que uma separação dos pais necessariamente inflige.
Naquele tempo, porém, eu não conseguia enxergar assim.
Eu tinha tantos buracos emocionais que o distanciamento deles era mais um.
Eu me sentia — e uso aqui uma palavra forte porque era assim que eu sentia — orfanado de filhos.
Meu Deus.
Que dor.
Eu queria meus filhos perto.
Muito.
E então eu estava diante de Gonzaguinha.
Ele queria o pai.
Muito.
E, do outro lado, Gonzagão queria chegar ao filho.
Muito.
Foi aí que meu Gonzagão e meu Gonzaguinha começaram a se encontrar.
Repetidas vezes.
Durante todo o filme.
E eu chorava.
Chorava pelo meu pai.
Chorava pelos meus filhos.
E, em algum lugar entre os dois, chorava por mim.
Acho que foi uma espécie de catarse.
Não no sentido rigoroso que a palavra possa ter na psicologia, mas naquele sentido em que a usamos no cotidiano: alguma coisa se abriu e uma quantidade enorme de emoção saiu de uma vez.
Ou talvez tenham sido duas catarse.
Uma para trás.
Outra para a frente.
Para trás, o filho que eu havia sido encontrava o pai que tivera.
Para a frente, o pai que eu havia me tornado encontrava os filhos que não conseguia alcançar.
E as duas coisas se encontravam dentro de mim.
Quando o filme acabou, eu estava num verdadeiro fosso emocional.
Seir estava ao meu lado.
E não sabia muito bem o que estava acontecendo comigo.
Ela não sabia que eu não estava chorando apenas por Gonzaga e Gonzaguinha.
Não sabia que, naquela sala de cinema, meu pai havia voltado.
Não sabia que meus filhos também haviam voltado.
Não sabia que eu estava, de certo modo, encontrando os dois ao mesmo tempo.
Mas ela fez uma coisa muito simples.
Ela ouviu.
Depois do filme, fomos a um restaurante.
Conversamos durante o caminho. E, à medida que falava, fui conseguindo elaborar aquilo que havia acontecido.
Seir foi uma ótima ouvinte.
Ela continua a sê-lo.
Ela acolhe.
No restaurante, estávamos sentados numa mesa quadrada. Não um de frente para o outro. Estávamos em lados contíguos.
Ela, à minha esquerda.
Entre conversas, desabafos, proximidades, nossos rostos ficaram muito próximos.
Eu a beijei. Foi nosso primeiro beijo.
E, então, comprometemo-nos ali.
Para a vida.
Talvez eu só tenha conseguido compreender plenamente aquela noite muitos anos depois.
O filme não me contou uma história sobre meu pai.
Contou-me a história de dois homens, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, e me ofereceu uma chave para olhar novamente para um terceiro: João José.
E, olhando para ele outra vez, percebo que meu pai não foi apenas o homem de quem senti falta.
Ele foi também o menino que provavelmente teve suas próprias faltas.
Foi o filho de alguém de quem falava com ternura e admiração.
Foi o homem brincalhão que conheci primeiro.
Foi o contador de histórias.
Foi o homem que depois se tornou severo, sisudo, pesado.
Foi o pastor sobrecarregado.
Foi o homem dos muitos remédios, da insônia e dos medos.
Foi o marido que precisava de minha mãe por perto quando a noite ficava grande demais.
Foi meu pai.
E há coisas que eu ainda não sei sobre ele.
Talvez nunca saiba.
Há coisas que ele não contou a ninguém e que foram embora com ele.
Nós, homens, temos nossos próprios segredos.
Hoje não preciso escolher entre a falta que senti e a compaixão que consigo sentir por ele.
As duas coisas cabem na mesma memória.
Posso reconhecer que queria um pai que brincasse comigo e, ao mesmo tempo, lembrar com ternura do homem que me contou histórias.
Posso lamentar as brincadeiras que não tivemos e guardar com carinho o abraço que um dia ele me deu.
Posso reconhecer o pai que ele não conseguiu ser para mim e também reconhecer o homem que talvez tenha feito o melhor que conseguiu com os recursos que tinha, com os pesos que carregava e com os mistérios que nunca conheci.
E talvez seja isso que aquele filme tenha feito por mim.
Não reconciliou o que não aconteceu.
Não inventou uma infância diferente.
Não apagou a falta.
Apenas me permitiu olhar para meu pai sem enxergá-lo somente através daquilo que me faltou.
E talvez haja nisso uma forma tardia de encontro.
Porque meu pai se foi há muitos anos.
Meus filhos cresceram.
E eu sigo carregando os dois lados da história dentro de mim: o filho que fui e o pai que me tornei.
Quando penso nisso tudo, volto àquele menino que chorou depois de receber um abraço do pai e não soube dizer por quê.
Hoje talvez eu possa responder por ele.
Talvez ele tenha chorado porque, por um instante, o pai que ele queria e o pai que tinha se encontraram.
E talvez seja por isso que, tantos anos depois, diante de um filme sobre outro pai e outro filho, eu tenha chorado novamente.
Só que, daquela vez, havia uma mulher sentada ao meu lado.
E, sem que nenhum de nós soubesse ainda, enquanto eu chorava pelos homens que haviam marcado minha vida, a minha própria história estava começando outra vez.

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