A caminhada dos 60
Decidi fazer uma caminhada para deixar pra trás os 59 anos que se passaram. Cada passo à frente, eu avançava em direção à nova década que se me abriria em menos de 24 horas. Não que eu quisesse antecipar a data, mas a verdade é que ninguém anda em direção ao passado, portanto lá fui eu, todo ancho, caminhando em direção ao sexagenarismo no final da tardinha.
Tão logo pus o pé na rua pensei: “Por que não ligar para mamãe?”. Liguei.
— É você, apressadinho?
Ri-me. Mamãe perde um amigo, mas não perde a piada.
— Oi, mamãe. Liguei para não correr o risco dos primeiros parabéns não serem da senhora!
— Era pra você ter nascido hoje!
Opa, pensei, lá vem história. Quis me sentar pra ouvir atentamente, mas não era para tanto. Mamãe me desfiou o rosário em pouco mais de uma hora de conversa.
14 de setembro de 1966. Pelas contas [de não sei quem, esse detalhe da conversa, meu cérebro talvez tenha se recusado a gravar], seria o dia. E nada da criança querer nascer.
Foi então que, experiente em ter filhos, mamãe resolveu dar uma ajuda à natureza: pegou duas latas, uma cheia de água e outra com água e sabão, três panos de chão e foi limpar a casa.
Era uma casa grande, com mosaicos no chão.
Contou-me ela que, sentada ao chão, fez a lavagem de mosaico em mosaico. O pano da água de sabão vinha primeiro. Em seguida, ela o torcia e colocava de volta na lata apropriada. Depois, com o pano da lata de água sem mistura, retirava o excesso da água de sabão que havia ficado. Com o terceiro pano, ela enxugava o mosaico. E foi assim que todos os mosaicos da casa foram limpos porque, eu na barriga estava e na barriga continuei. Pelo jeito [hoje eu tenho certeza!] estava muito bom lá dentro. Ela me disse que deveria estar muito quentinho lá dentro, por isso eu não quis sair. Possa ser.
Fato é que ela tentou cutucar a onça com vara curta, mas não deu certo hahaha! Calma, Dona Laó, ainda não chegou a sua hora. Nem a minha. Outro fato interessante: cheguei sob a égide da limpeza! Hmmm... agora entendo um pouco mais sobre minha mania de limpeza. Não, gente, não é TOC. É genética mesmo. O homem é produto do meio. Tudo já estava escrito nas estrelas. Ou nos mosaicos. Faça sua escolha.
A tarde chegou e nada aconteceu. Mamãe resignou-se a esperar mais um pouco. Talvez acontecesse à noite? As contas estariam erradas? A natureza não entendeu os sinais que ela dera no esforço de limpar a casa? Perguntas que seriam respondidas em menos de 24 horas.
Raiou a manhã do dia 15. Um dia lindo, de sol. Muitos raios de sol.
A primeira contração aconteceu cedo, por volta das 9h. Aquela marinheira de várias — três, na verdade — viagens, entendeu o que estava acontecendo. Aguardou mais algumas contrações antes de anunciar a papai. Veio a segunda. Ela marcou o tempo pra calcular a hora de mandar chamar Dona Belarmina, a parteira da vila. A terceira contração chegou mais rápido que o intervalo anterior. Isso acendeu um alerta: “Opa, opa, opa! É já que essa criança nasce.” A quarta contração demorou a chegar. “Minha gente!” Depois de algum tempo, veio. Então vieram outras, em frequências e intensidades diferentes.
Mamãe ficou um tanto confusa. Nas três gravidezes anteriores ela havia tido contrações com frequência decrescente. Ela me explicou como eram. Na minha cabeça a segunda contração dos nascimentos das meninas viera 20 minutos após a primeira. A terceira, 19 minutos após. A quarta, 18. E por aí foi. É assim que imagino que a coisa acontece, na minha cabeça cartesiana: intervalos regularmente decrescentes entre as contrações. Mas no meu nascimento foi diferente. Ah, beeem diferente! (Hmmm... agora algumas coisas fazem mais sentido para mim.) Bom, voltemos às contrações. Ora vinha, ora não vinha. Era eu, lá dentro: não sei se vou, não sei se fico. Quero ir, mas aqui tá tranquilo.
— Darling, estou tendo contrações. Ainda é cedo e Dona Belarmina tem filhos pequenos. Essa hora ela deve estar preparando o almoço das crianças. Então mais tarde você vai chamá-la, está certo?
Mal mamãe deu as costas pra se ocupar, lá foi papai, em busca da parteira. Mamãe só viu o vulto já dobrando a esquina da Federal. Naqueles idos, haviam poucas casas e dava-se para perceber a movimentação das pessoas aos lugares onde iam. A Federal era o nome de uma estrada que cortava a cidade. Era para as bandas de onde ela seguia que Dona Belarmina morava.
Aqui preciso abrir um parêntesis para contar que, ao ouvir mamãe falar sobre a regularidade das contrações, ela usou como exemplo o que aconteceu no nascimento de Quel. Foi muito complicado. Quando chegou o tempo dela nascer, papai foi buscar Dindinha (a avó de mamãe) para fazer mais aquele parto. Dindinha morava em Recife, bem longe — ainda mais naqueles tempos — de Rodeador, onde moravam. A bolsa se rompeu durante a viagem de papai e, até que ele chegasse com Dindinha, já haviam se passado 24 horas, por aí. Foi um parto muito difícil e quase que as duas foram ver Deus antes da hora! Mas, no final das contas, acabou que deu certo.
Fecho o parêntesis.
— Mamãe, acho que esse desespero de papai deve ter sido um reflexo do nascimento de Quel. Na hora que a senhorinha falou para ele que estava tendo contrações, um filme inteiro deve ter passado na mente dele.
Mamãe concordou. Ela nunca havia pensado sobre isso. Papai passou 60 anos sendo “o desesperado”. Haha! Descansa em paz, papai. Você só era um homem cauteloso.
Quando papai chegou com Dona Belarmina, mamãe estava saindo do banho.
— Ah, Dona Laodice, pensei que iria encontrá-la na cama...
— Não. Ainda estou tendo contrações. Mas elas estão muito irregulares. Já arrumei a cama do jeito que a minha avó fazia.
Foram conferir.
— Ah, sim. Eu também gosto que arrume assim.
Eu:
— Assim como, mamãe?
— A cama forrada com um lençol limpo e esticado, e mais três lençóis limpos do lado para quando Dindinha precisasse.
— Hmmm... tá. Continue.
Após verificação “da sala de parto”, Dona Belarmina quis examinar mamãe.
— Ah, Dona Laodice, só vai nascer lá pelas duas da tarde!
(Ah, tá... — eu, lá dentro — Vai pensando que sabe das coisas, viu?)
Não demorou muito, e antes de ela sair para cuidar do almoço das suas crianças, mamãe teve outra contração. Opa, opa, opa! Dona Belarmina resolveu aguardar. E foi ficando.
Aqui e ali, papai aparecia para ver como a coisa evoluía.
A manhã já estava acabando e papai foi, então, preparar o almoço das meninas.
— E ele sabia cozinhar, mamãe?
— Sabia. Ele não cozinhava, mas sabia fazer uma comida boa. Ele sabia fazer um lombo...
— Ulha!! Papai mestre-cuca. Quem diria. — Lembrei-me que ele fazia pão.
Contrações vinham, contrações iam. As duas lá, esperando ver o que acontecia.
11h20. Papai, achando que estava tudo muito silencioso, deu as caras:
— E aí?
Dona Belarmina foi fazer um último exame de toque. Mas não com a mão, e sim com a ponta da tesoura. Ah, malvada!
Com muito cuidado, rompeu a bolsa. Bem nesse momento, papai havia chegado:
— E aí?
Aí ele foi ajudar Dona Belarmina, que estava sozinha, pois já tinha experiência de haver participado do nascimento de Quel.
11h30 eu nasci. Aquela história do raio de sol e tudo mais, que já contei antes. Mas nasci com a mão fechada (hmmm... olhaí) levando-a à boca, como quem está com fome (hmmmmmm... eu sabia!).
— Esse menino nasceu na hora do almoço e já com fome! — exclamou mamãe. Na verdade, ela, tal qual Pedro diante da transfiguração, estava embevecida e não sabia direito o que falar, mas falou lá qualquer coisa. Hahaha!
Eu estava era querendo acertar a venta de Dona Belarmina, que havia apressado a minha hora.
Enfim, assim nasci.
Mamãe ainda me contou que Dona Dina, a vizinha, desconfiou que ela estava tendo neném porque mamãe passou a gravidez toda cantando (hmmm... eis aí o porquê de a música estar tão presente em mim) e, subitamente, ela parou de cantar naquela manhã.
Pronto. Foi bem assim que tudo aconteceu.
Ouvido, lido, revisado e registrado.