Eu fui um menino complexado.
Era um pouco estrábico, mas me enxergava o próprio zanôio. “Zanôio” era como chamávamos, na minha infância, os zarolhos. E havia o bulis, que vinha junto.
Desde cedo usei óculos. Os primeiros, que papai mandou fazer na Ótica Pérola, em Garanhuns, pareciam um observatório espacial. Eram enormes.
Mas aqueles óculos enormes eram, de certa forma, o meu refúgio. As lentes faziam meus olhos parecerem alinhados e, de óculos, quase não se percebia o estrabismo.
Eu me sentia protegido atrás deles.
| agosto/1983 |
Eu me sentia o feio.
Não me lembro de quando esse sentimento começou. Só sei que cheguei à adolescência com ele. E entrei no mercado de trabalho carregando-o comigo.
Até que, entre os dezessete e os dezenove anos, aconteceu uma coisa.
Depois do banho, afastei a cortina para pegar a toalha.
Foi quando, sem planejar, vi meu rosto refletido no espelho do armarinho que havia no banheiro.
Sem os óculos.
De frente.
Cara a cara.
Não estava esperando ver o que vi.
Sim, eu era zanôio.
Uma tristeza enorme invadiu meu ser.
Então é isso... eu sou zanôio mesmo.
Puxa... não é sem razão que eu não tenho olhado ninguém de frente.
Está aí a razão.
Fiquei um tempo ali, diante daquele espelho.
Depois, respirei fundo.
Bem fundo.
A tristeza foi assentando, como a poeira de um terreiro que alguém tenta varrer com vassoura de palha num dia de muito vento. Até a poeira baixar, vai um queijo e uma rapadura inteira.
Então pensei:
Bem. Esse aí sou eu. Eu sou assim mesmo.
Foi só isso.
Não houve milagre. Não houve transformação do rosto.
Houve apenas o reconhecimento.
Eu me enxerguei como era.
E, aos poucos, a dor foi embora.
Aos poucos, corrigi o olhar.
Aprendi a encarar as pessoas de frente.
Daí a encarar o mundo de frente foi um pulo.
Não demorou muito, mandei fazer lentes de contato.
Foi uma experiência e tanto. Sem aquele observatório espacial na cara, eu me sentia livre. Era como se dissesse ao mundo:
Oi, liberdade! Aqui estou eu!
As lentes eram muito legais. Mas havia um problema: aquele negócio de ficar pondo e tirando do olho cansa.
Se cai um cisco, é um Deus nos acuda.
Acordou? Tem que ir ao banheiro, lavar o rosto, lavar as mãos, tirar as lentes, lavar as lentes...
Cansei.
Os óculos são muito mais práticos.
Cansou? Tira.
Acordou? Põe.
Pronto.
Depois fiz cirurgia de miopia e passei um tempo sem óculos.
Mas minha miopia era muito apegada a mim e não aceitou aquele bota-fora como definitivo.
Voltou.
Hoje uso óculos outra vez. Meu grau é pequeno. Sobrevivo muito bem sem eles, mas acostumei-me.
E gosto deles.
São apenas óculos.
Não são mais esconderijo.
Não são mais refúgio.
Não preciso deles para olhar ninguém de frente.
Na verdade, isso já estava resolvido fazia muito tempo.
Tudo começou naquele banheiro, quando eu afastei uma cortina para pegar uma toalha e, sem querer, encontrei um espelho.
E encontrei a mim mesmo.
De frente.
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