Em 1966, papai estava prestes a entrar no sexto ano de seu pastorado quando, por uma série de motivos, alguns deles bastante intrincados, ficou decidido que a família teria de deixar Rodeador, uma pequena corrutela que se estendia pela beira de um rio, na região rural do município de Salgado de São Félix, na Paraíba.
Iriam para o interior da Bahia.
Mamãe, grávida de três meses, não fazia a menor ideia de onde ficava esse lugar. Tanto que imaginava que viajariam de avião. Coitada! O aeroporto mais próximo ficava na capital.
A viagem, porém, seria bem diferente.
A família teria de fazer todo o percurso de ônibus: de Rodeador a Recife; de Recife a Salvador; e de Salvador até Canal, a pequena vila para onde estavam indo, que tinha menos de dois mil habitantes.
Foram três dias de viagem.
Em 1966 não se viajava à noite como hoje. Quando anoitecia, o ônibus parava e os passageiros precisavam pousar em algum lugar. E houve uma dessas noites em que o lugar era tão sujo que mamãe simplesmente não conseguiu dormir.
Passou a noite sentada.
Papai e as três meninas — Tutinha, com quatro anos; Eva, com três; e Quel, com um ano e meio —, vencidos pelo cansaço, conseguiram dormir. Mamãe, não.
E mesmo sem conseguir dormir, continuou cuidando delas.
Colocou lençóis junto à parede, formando uma proteção para que, enquanto dormissem, as meninas não se encostassem naquela parede imunda.
Era uma mulher grávida de três meses, numa viagem de três dias, com três crianças pequenas, deixando para trás uma vida inteira e indo para um lugar que ela mal sabia onde ficava.
Mas antes de partir havia acontecido uma coisa que, para mim, revela ainda mais profundamente quem era Lalau.
Como a família teria de se desfazer de praticamente tudo, ficaram somente com as roupas. Móveis, panelas, utensílios — tudo teria de ser conseguido novamente na nova morada onde quer que fosse.
Havia, entretanto, uma coisa que mamãe guardara cuidadosamente: todo o enxoval de Quel.
Era assim naquele tempo. A criança seguinte herdaria praticamente tudo da irmã anterior. O enxoval de Quel estava lavado, engomado, passado e guardado para o próximo bebê.
E o próximo bebê já estava a caminho.
Pouco antes da viagem para Recife, quatro mulheres apareceram para fazer uma visita.
As quatro estavam grávidas.
Sem saber que mamãe também estava, perguntaram:
— Dona Laodice, a senhora não teria umas roupinhas para nos dar, de suas gravidezes anteriores?
Eram mulheres muito pobres. Pobres de Jó.
Mamãe poderia ter separado algumas peças. Afinal, estava grávida de três meses e sabia que, dentro de poucos meses, precisaria daquele enxoval. E sabia também que a família estava prestes a começar praticamente tudo de novo.
Mas Lalau deu todo o enxoval.
Tudo.
As roupas estavam cuidadas como se esperassem justamente pelo bebê que ainda viria: lavadas, engomadas e passadas, cheirando a Alfazema, aquela colônia tão comum à época, de líquido esverdeado.
O enxoval foi repartido entre as quatro mulheres.
Dividido por quatro, naturalmente, não sobrava uma grande quantidade para nenhuma delas. Mas foi uma festa.
Para aquelas mulheres, aquelas roupinhas significavam muito.
E mamãe sabia exatamente o que estava fazendo.
Ela sabia que estava grávida.
Sabia que precisaria de outro enxoval.
Sabia que a família teria de conseguir móveis, panelas e tudo o mais para a nova casa.
Sabia que estava indo para uma terra desconhecida.
E, mesmo assim, deu aquilo que havia guardado para a próxima criança que teria e que chegaria dentro em pouco.
Depois disso, a família partiu.
Três dias de ônibus.
Rodeador, Recife, Salvador, Canal.
E, finalmente, chegaram.
Um presbítero da igreja os recebeu, deu as boas-vindas e, naturalmente, perguntou:
— Como foi a viagem?
Depois de três dias de estrada, grávida, com três meninas pequenas, depois de uma noite inteira sentada num lugar onde não conseguiu sequer se deitar...
Lalau só conseguiu responder:
— Estou viva.
E estava.
Havia chegado.
Na nova igreja, as mulheres acolheram aquela família que acabava de chegar de tão longe. E, sabendo que Lalau estava grávida, fizeram por ela aquilo que ela havia feito pouco antes por aquelas quatro mulheres na Paraíba.
Deram-lhe todo o enxoval do bebê.
Novo.
Novinho.
Estalando.
Assim, em menos de seis meses, Lalau havia dado o enxoval que guardara para seu próprio filho (eu!) e recebido outro, inteiramente novo, das mulheres da nova igreja.
Mas o que torna essa história grandiosa não é simplesmente o fato de que ela recebeu depois de dar.
É que, quando Lalau deu, ela não sabia que receberia.
Não tinha nenhuma garantia.
Não estava cercada de abundância.
Ao contrário: estava prestes a deixar sua casa, sua comunidade e praticamente todos os seus bens; estava grávida de três meses; tinha três filhas pequenas; viajaria durante três dias de ônibus para uma vila desconhecida no interior da Bahia e teria de começar uma nova vida quase do zero.
Mesmo assim, quando quatro mulheres pobres e grávidas lhe pediram ajuda, Lalau não fez a conta do que precisaria guardar para si.
Ela simplesmente deu.
E talvez seja justamente por isso que essa lembrança, contada por ela quase sessenta anos depois, tenha me impressionado tanto.
Porque naquele gesto aparentemente pequeno — um enxoval de criança, algumas roupinhas, um cheiro de Alfazema — havia uma coisa enorme.
Uma mulher que, mesmo tendo pouco, não era pequena na hora de repartir.
E talvez a resposta tenha vindo sem que ela a procurasse.
Ela deu o enxoval.
Recebeu outro.
Mas o que ela havia revelado naquele primeiro gesto já era dela.
O tamanho do coração de Lalau.
E para fazer jus à fé professada por mamãe (e por mim), concluo este relato com as seguintes palavras de Jesus:
"[...] deem e lhes será dado; boa medida, prensada, sacudida e transbordante será dada a vocês; porque com a medida com que tiverem medido vocês serão medidos também." (Lucas 6.37 NAA)
Ideias organizadas com suporte de IA e rigorosamente revisadas por mim. Conteúdo e voz autoral estritamente meus.