Seir,
hoje faz treze anos.
Treze anos desde aquele dia em que nós dois, já não exatamente adolescentes — embora eu ainda tenha lá minhas dúvidas quanto a mim —, resolvemos dizer diante de Deus e de todo mundo que queríamos andar juntos pela vida.
E há uma coisa daquele casamento que hoje me parece ainda mais bonita do que me parecia naquele dia: nós escolhemos tudo.
A dedo.
Não foi alguém que sugeriu uma música bonita para a entrada da noiva. Não foi o pessoal da igreja que montou uma sequência tradicional. Não foi um cerimonialista que apareceu com uma pastinha dizendo: “Essa aqui fica linda nessa hora”.
Não.
Fomos nós.
João e Seir.
Escolhemos cada música, cada momento, cada passagem.
Mas há uma coisa curiosa: embora as músicas fossem escolhas nossas, a história que elas contavam apontava para Deus.
E hoje, treze anos depois, quando olho para aquela cerimônia, percebo que as músicas não foram apenas músicas.
Elas contaram a nossa história.
A primeira foi “Bem Vindo”.
E já aí havia uma coisa bonita: não era uma música para nos receber.
Era para receber Deus.
“Tu és bem-vindo ao nosso meio.”
A cerimônia começou assim.
Antes de João. Antes de Seir. Antes do casamento. Antes de qualquer declaração de amor.
Deus.
Como quem dissesse: “Pronto. Estamos aqui. Agora venha o Senhor estar conosco.”
E então entrou Jônathas, cantando “Hino ao Amor”.
Para mim.
O filho da mulher com quem eu estava me casando cantando para o homem que entrava para se casar com a mãe dele.
E a música não dizia simplesmente que o amor era bonito.
Pedia que o amor crescesse, que ultrapassasse o coração, que fosse mais do que emoção, que falasse de esperança mesmo quando tudo sugerisse que não.
E então veio aquela frase que talvez tenha passado depressa demais para quem estava ouvindo:
“Cada qual seu amor no amor de Cristo,
pra que os três venham a ser somente um.”
Olha só.
Não era simplesmente João e Seir.
Era João, Seir e Cristo.
Não como uma fórmula decorativa para casamento cristão.
Como o centro.
Como o ponto para onde os dois amores deveriam convergir.
Depois veio a sua entrada.
E quem cantou foi Gabriela.
Minha filha.
Ela cantou “How Great Is Our God”.
Hoje, quando penso nisso, acho que entendo melhor o que estava acontecendo.
Você não estava simplesmente entrando.
Você estava testemunhando.
Depois de tudo o que a vida tinha sido, depois de tudo o que você havia atravessado, depois dos caminhos que trouxeram você até aquele momento, você queria que aquelas pessoas soubessem uma coisa:
How great is our God.
Como é grande o nosso Deus.
Não era apenas a entrada da noiva.
Era um testemunho.
E houve ainda um momento que não poderia faltar naquela história: a apresentação da noiva à matriarca.
Você foi apresentada à minha mãe.
Àquela que, para mim, não era apenas mãe, mas a grande memória viva da nossa família.
E hoje eu penso que havia ali uma espécie de passagem de bastão.
Você, chegando à nossa família.
Ela, recebendo você.
E eu, no meio das duas, provavelmente sem fazer ideia da quantidade de história que ainda haveria pela frente.
E então, depois da sua entrada, vieram Jônathas e Hadassa.
“Essência de Deus”.
E foi como se a cerimônia, depois de apresentar os dois que estavam se casando, parasse por um instante para olhar novamente para Aquele que estava no centro de tudo.
Não era mais apenas a história de João e Seir.
Era a história de Deus no meio dela.
E então veio “Tu És Fiel, Senhor”.
Todos.
A comunidade inteira.
E isso também é bonito quando se olha para trás.
Porque nós dois não estávamos ali sozinhos.
Havia gente que nos amava, que nos conhecia, que orava por nós, que compartilhava aquele momento.
E todos juntos cantando sobre a fidelidade de Deus.
Depois disso, veio a nossa música.
“Lado a Lado”.
E essa talvez seja a música que mais me faz olhar para trás hoje.
Porque ela fala de reconhecer Deus quando se olha para o passado.
De perceber sua mão sustentando aquilo que foi sonhado.
De perceber, nas cores do passado, aquilo que talvez só muito depois tenha ficado claro.
“Foi a tua mão
que sustentou o sonho acalentado...”
Nós havíamos escolhido aquela música.
Mas o que estávamos cantando era justamente isto: quando olhávamos para trás, reconhecíamos a mão de Deus na nossa história.
E então vinha a frase que, treze anos depois, ganhou um peso que naquele dia nós ainda não poderíamos conhecer:
“Que nos separou
nos preparou pra andarmos lado a lado.”
Hoje eu penso nisso e fico impressionado.
Porque naquele dia nós estávamos começando.
Hoje nós sabemos um pouco mais do que significa continuar.
E a música terminava colocando diante de Deus aquilo que éramos e aquilo que ainda seríamos:
“O que somos e seremos,
para o teu louvor.”
O “seremos” daquele dia era enorme.
Hoje ele já tem rosto.
Tem memória.
Tem cicatriz.
Tem gargalhada.
Tem cotidiano.
Tem história.
Tem nós dois.
Depois veio a palavra do celebrante.
E foi aí que duas histórias bíblicas se encontraram na nossa história.
Primeiro, Caná da Galileia.
Ele falou do vinho que havia acabado.
E falou do simbolismo do vinho naquele casamento: a alegria.
Porque casamento também é isso: alegria compartilhada, celebração, festa.
Mas o vinho pode acabar.
A alegria pode diminuir.
O que era abundante pode parecer insuficiente.
E foi então que ele nos lembrou de Cristo.
Quando falta o vinho, Cristo pode trazê-lo de volta.
Depois, ele nos levou a Cantares.
E ali apareceu outra imagem que nunca mais saiu da minha cabeça:
o fim do inverno.
O inverno havia passado.
E nós estávamos nos casando justamente ali, no seu fim.
O celebrante nos mostrou que o casamento podia ser também isso:
colocar fim ao inverno e ir ao encontro da primavera.
E eu acho que naquele dia nós nem imaginávamos o quanto aquela imagem seria apropriada para nós.
Porque nós não estávamos apenas nos casando.
Estávamos saindo de um inverno.
E indo juntos para a primavera.
Depois da pregação veio a bênção das alianças.
E então chegamos a “Sublime Amor”.
E aqui, Seir, eu preciso confessar uma pequena intervenção do compositor João.
A letra dizia:
“Da mesma maneira, querida...”
Mas eu não cantei “querida”.
Eu cantei:
“Da mesma maneira, Seir, eu...”
kkkkkkkkkkkkkkkk
Porque, convenhamos, se era para eu cantar aquilo olhando para você, por que cargas d'água eu haveria de cantar “querida”?
Naquele instante, a música deixou de ser apenas uma música.
Era eu falando com você.
Seir, eu quero me entregar.
E então nós cantamos que o nosso amor vinha do Senhor. Que queríamos lembrar disso em cada instante.
E o refrão repetia aquele “Aleluia, Te amo, Glória a Deus”.
Simples.
Quase desarmado.
Depois de tanta coisa, tanta espera, tanta história, tanta elaboração...
Aleluia.
E, quando parecia que tudo já tinha sido dito, veio “Em Seu Nome”.
Eliab cantando.
A música trouxe de volta a comunidade.
A igreja.
A oração.
A promessa de que, onde dois ou três estivessem reunidos em nome de Jesus, Deus estaria ali.
Nós cantamos para Ele.
Pedimos que recebesse aquele cântico.
E terminamos proclamando:
“O teu imenso amor nos alcançou!”
*(Agora, Seir, deixa eu fazer uma coisa que naquele dia eu não poderia fazer. Deixa eu voltar às músicas, uma por uma, mas desta vez olhando para elas daqui de hoje.
Porque acho que só agora consigo perceber que elas não estavam apenas em sequência.
Elas estavam conversando.
“Bem Vindo” começa recebendo Deus entre nós. É como se dissesse: antes de qualquer coisa, Ele está aqui.
E “Hino ao Amor” parece responder: se Ele está aqui, então nosso amor não pode encontrar em si mesmo o seu ponto final. Ele precisa encontrar em Cristo o seu alvo comum.
Então entra você, e Gabriela canta que grande é o nosso Deus. Como se a resposta àquela primeira oração fosse um testemunho: sim, o Deus que recebemos é grande.
“Essência de Deus” aprofunda o olhar. Já não estamos apenas dizendo que Deus é grande; estamos contemplando quem Ele é.
E “Tu És Fiel, Senhor” vem como resposta da comunidade: o Deus que está conosco, o Deus a quem o amor se dirige, o Deus cuja grandeza contemplamos, é fiel.
Então chegamos a “Lado a Lado”.
E aí tudo aquilo deixa de ser apenas teologia e entra na nossa história.
Se Deus é fiel, podemos olhar para trás.
Podemos reconhecer sua mão.
Podemos perceber cores que talvez não enxergássemos naquele momento.
Podemos dizer que aquilo que nos separou também nos preparou.
E podemos andar juntos.
Lado a lado.
Então o celebrante nos leva a Caná.
E descobrimos que até o vinho da alegria pode acabar — mas que Cristo pode trazê-lo de volta.
E nos leva a Cantares.
E descobrimos que o inverno passa.
Que há uma primavera depois dele.
Que é possível sair de um tempo de frio e caminhar para outro tempo.
E nós, justamente naquele dia, estávamos fazendo isso.
Depois vem “Sublime Amor”.
E agora a resposta já não é apenas “Deus está aqui”, nem “Cristo é o centro”, nem “Deus é grande”, nem “Deus é fiel”, nem “o inverno passou”.
Agora a resposta é pessoal.
Eu me entrego.
Eu, João.
A você, Seir.
Mas sem esquecer que o nosso amor vem do Senhor.
E então “Em Seu Nome” abre tudo outra vez.
O que começou entre dois agora volta para todos.
A oração volta.
A comunidade volta.
Deus volta a ser invocado.
E a história inteira desemboca naquela frase:
“O teu imenso amor nos alcançou.”
Talvez seja por isso que hoje eu veja aquelas músicas como uma única história.
Uma deixando uma frase para a seguinte.
Uma completando a outra.
Como se, sem que nós soubéssemos, cada música já estivesse preparando a próxima.
E como se todas, juntas, estivessem dizendo uma coisa só:
Deus esteve aqui.
Deus foi fiel.
O amor nasceu.
O inverno passou.
A primavera começou.
E nós fomos chamados a andar juntos.
Fecho o parêntesis.)*
E então aconteceu uma das coisas mais bonitas daquela cerimônia.
O último acorde do “alcançou” já era, ao mesmo tempo, o começo de outra coisa.
No próprio acorde de “alcançou” começou “Pompa e Circunstância”.
O acorde ainda estava no ar...
e a marcha começou.
Eu acho isso maravilhoso.
Porque, de certo modo, a cerimônia terminou dizendo:
O amor de Deus nos alcançou.
E a música seguinte respondeu:
Então vamos.
kkkkkkkkkk
Era quase como se Deus tivesse dito:
“Pronto. Agora chega de ficar aqui dentro. Vão viver.”
E nós fomos.
E eu fiz o que, naquele momento, parecia ser a coisa mais natural do mundo:
peguei você nos braços.
Depois de tudo aquilo — depois da música, da oração, das promessas, dos testemunhos, do “Lado a Lado”, do “Sublime Amor”, do “Em Seu Nome” — eu finalmente podia anunciar, em meu próprio idioma:
“Agora sim, posso levar pra casa.”
😂
E levei.
Treze anos depois, Seir, continuo levando.
Só que agora nós sabemos uma coisa que naquele dia ainda não sabíamos:
a primavera não era um lugar aonde chegaríamos.
Era o caminho que começava naquele dia.
Vieram os dias que nós imaginávamos e outros que jamais teríamos imaginado. Vieram alegrias, preocupações, família, mudanças, histórias, pequenas coisas do cotidiano, risadas, silêncios, conversas, músicas, orações.
Veio a vida.
A vida de verdade.
Treze anos.
E ainda estamos indo.
Lado a lado.
E talvez seja esse o nosso maior “felizes para sempre”.
Não porque chegamos ao fim da história.
Mas porque ainda estamos escrevendo.
Juntos.
Lado a lado.
E, se Deus permitir,
ainda por muito, muito tempo.
Feliz nosso 13º aniversário, Seir.
Eu escolheria você outra vez.
E, se me deixassem escolher as músicas...
eu escolheria as mesmas.
Só que agora eu cantaria cada uma delas sabendo um pouco mais do que elas queriam dizer.
E naquela parte...
“Da mesma maneira, querida...”
eu continuaria cantando:
“Seir, eu...”
❤️