Minha próstata resolveu disputar uma olimpíada.
Sem me
consultar, naturalmente.
Sem pedir autorização.
Simplesmente decidiu que era hora de
mostrar do que era capaz.
Talvez quisesse ser a mais forte, a
mais varonil, a mais musculosa, a maior de todas.
Não sei.
O fato é que adquiriu vida própria.
Durante anos, subiu ao pódio da
hiperplasia prostática benigna.
Ano após ano.
O quadro de medalhas na parede provava
o esforço em se superar.
Mas chegou um momento em que eu
disse:
— Chega. Você já provou o que
precisava provar. Está na hora de se aposentar.
Foram dez anos até a cirurgia.
Dez anos de acompanhamento.
Oito deles com meu querido amigo, o
doutor Dídimo Teles, urologista em Brasília e professor da Universidade de
Brasília por muitos anos.
Ele conhecia o meu caso.
Sabia que não era câncer.
Por isso, durante muito tempo,
preferiu que eu aguardasse.
O problema é que eu carregava uma
história familiar pesada.
Havia muitos casos de câncer na
minha família materna.
Somados ao histórico do lado
paterno, esses relatos formavam, na minha cabeça, um mapa de risco.
Eu sabia que existiam histórias de
doenças que atravessavam gerações, e aquilo me assustava.
Então, quando meu PSA começou a
subir, eu não enxergava possibilidades.
Eu enxergava uma sentença.
Eu havia esquecido completamente que
o caso do meu pai era HPB.
Eu só via o câncer.
Cheguei ao consultório do doutor
Dídimo carregando comigo uma certeza:
“Tenho câncer.”
Não era apenas a saúde.
Era também o final traumático do meu
primeiro casamento, uma fase em que eu estava emocionalmente muito fragilizado.
Eu estava tenso.
Nervoso.
Assustado.
E ele percebeu.
As primeiras consultas foram
inesquecíveis.
Não foram apenas consultas médicas.
Foram aulas.
Anatomia.
Fisiologia.
Explicações.
Conversa.
Calma.
Ao final de cada encontro, quando
percebia que minha respiração já estava diferente, que meus braços já não
estavam cruzados, que o suor havia diminuído, ele perguntava:
— Podemos fazer o exame agora?
Depois vinha sua avaliação:
— João, vamos confirmar com os
exames de sangue, mas, pelo que consegui palpar, não há endurecimento, não há
alteração preocupante na textura. Ela está aumentada, mas não há motivo para
esse desespero.
E assim ele foi, aos poucos,
devolvendo o tamanho real das coisas.
Quando o PSA ficou realmente mais
alto, ele pediu uma ressonância magnética com contraste.
Eu nunca havia feito uma.
Se o doutor Dídimo pediu, pensei:
“É porque deve ser o exame certo.”
Ele recomendou a clínica.
Fiz a marcação por telefone.
O atendente confirmou tudo:
dia,
hora,
local,
preparativos.
Tudo certo.
Já estava encerrando a ligação
quando ele se lembrou de uma pergunta:
— O senhor tem claustrofobia?
— Não.
— Ah, então está tudo bem.
Silêncio.
— Só um minuto, por favor.
— Pois não?
— Por que você me perguntou se eu
tenho claustrofobia?
— Ah… é porque o exame é feito
dentro de um tubo. Mas, no seu caso, não terá problema algum.
Click.
Fim da ligação.
E eu fiquei com uma única
informação:
“Como assim dentro de um tubo?”
Cheguei ao dia do exame tenso.
Fiz a entrevista.
Recebi as orientações.
Tirei a roupa.
Seriam quarenta a quarenta e cinco
minutos:
Primeiro a ressonância sem
contraste.
Depois o contraste.
Depois uma nova sequência.
Todos foram extremamente gentis.
Chegou a hora.
Deitei na maca.
Braço direito acima da cabeça para o
acesso do contraste.
O corpo entraria inteiro no
aparelho.
Na mão esquerda, o botão de
emergência.
“Se precisar, aperte.”
Foi colocado sobre minha barriga um
“travesseiro”.
Um peso de aproximadamente cento e
vinte quilos.
Pelo menos era essa a sensação.
A função era evitar movimentos.
Eu deveria respirar calmamente.
A sala ficou escura.
Só a luz da máquina permanecia
acesa.
E estava frio.
Muito frio.
Um frio concreto, de sala de exame.
Pelo autofalante da sala, escutei:
— Seu João, vamos começar o exame.
Se puder respirar mais calmamente, melhor, para não precisarmos parar e
recomeçar todo o processo novamente. Vai dar tudo certo.
Alguns segundos.
Eternos.
De repente, o barulho da máquina
ligando.
“Meu Deus, me ajude.”
“Eu não sou claustrofóbico.”
“Meu Deus… e se houver um terremoto
e esse prédio cair, e eu aqui dentro dessa máquina?”
“Deus me ajude.”
Então começou.
A barulheira.
Uma barulheira infernal.
Minha ansiedade foi de zero a mil em
milésimos de segundos.
A mão segurava o botão.
“Eu quero sair daqui.”
Minha respiração ficou ofegante.
O barulho mudava.
As pancadas mudavam.
A maca se deslocava um pouco mais
para dentro.
Eu estava de olhos fechados desde o
início.
E então aconteceu.
De repente.
Não mais que de repente.
No meio de todos aqueles sons
absurdamente altos, minha mente percebeu uma sequência.
Uma sequência harmônica.
“Acordes.”
“São acordes.”
“Eu consigo perceber acordes.”
Eu estava tentando me lembrar de
algum salmo para me acalmar.
E veio o Salmo 1:
“Bem-aventurado o homem que não anda
no conselho dos ímpios…”
Então veio o pensamento:
“Mas esse não é o hino número 1 do
Hinário Salmos e Hinos?”
Comecei a cantá-lo mentalmente.
Quando terminou, veio outro hino:
“Divino Salvador.”
Depois outro.
E outro.
E outro.
Os hinos continuaram vindo.
Todos cantados mentalmente.
Nenhuma voz saiu da minha boca.
Nenhum ouvido além do meu os ouviu.
O som da máquina continuava.
Mas agora havia música.
À medida que o tom mudava, eu
modulava o hino da vez.
A máquina fazia o seu trabalho.
E eu fazia o meu.
Cantava.
Quanto mais eu cantava, mais
relaxado ficava.
Até que me assustei ao ouvir pelo
alto-falante:
— Seu João, acabou.
Não sei dizer em que altura dos 604
hinos do Hinário Salmos e Hinos eu dormi.
Só sei que dormi.
Dentro do tubo.
Mais tarde, pensando naquela
experiência, entendi de onde vinha aquela capacidade de encontrar música no
meio do ruído.
Vinha de muitos anos antes.
Vinha de uma casa onde poesia era
falada, a Bíblia era decorada e música fazia parte da rotina.
Vinha dos cultos domésticos
conduzidos por meu pai.
Vinha dos hinos cantados tantas
vezes.
Vinha das vozes da minha família.
Mas, naquele momento, dentro daquela
máquina, eu não pensei em nada disso.
Eu apenas ouvi.
E cantei.
Aquelas experiências haviam deixado
algo guardado.
Uma reserva.
Uma linguagem.
Uma música esperando a hora certa.
Naquele dia, a ressonância procurava
imagens do meu corpo.
Mas acabou revelando outra coisa:
havia música guardada dentro de mim.
Minha próstata resolveu disputar uma
olimpíada.
Treinou por anos.
Ganhou volume.
Preparou-se para a grande
competição.
Só não contava com um detalhe:
seria desclassificada antes mesmo da
prova.
No fim, não ganhou medalha alguma.
Mas conseguiu algo que jamais
imaginou.
Levou-me a uma audição sem plateia.