segunda-feira, 27 de julho de 2026

Quando o cosmos resolve zerar uma conta.

Se há uma coisa certa nessa vida é que o cosmos não deixa ninguém dever nada. Há, inclusive, um ditado que corre à boca nem sempre miúda, que afirma peremptoriamente: “aqui se faz, aqui se paga”.

Mamãe me contou várias de suas peripécias. Sempre bem-humorada, com o coração leve, ela tinha umas tiradas que apareciam do nada e, mesmo sem haver planejado aquilo, ela se valia da oportunidade para pegar peças nas pessoas. Nada ofensivo nem grosseiro. Ao contrário, tudo envolvido em muita risada e diversão. Qualquer hora dessas, escrevo uma ou umas dessas histórias dos seus [mal]feitos.

Certa feita, eu morava em uma chácara. Era um lugar lindo, com muito verde, casa espaçosa com o quintal dando para a mata fechada. As janelas, como se haveria de esperar para casas de chácaras, eram teladas. Mamãe, amante da natureza como ninguém mais, amou aquele lugar. Veio passar um tempinho conosco para matar a saudade do filho que morava mais distante de todos. Não sei se uma semana, um mês ou dois. Foi pouco tempo. Poderia ter ficado mais.

Bom, mas o fato é que naquela noitinha, ao retornar para casa, percebi que não havia levado comigo as chaves. Chequei a porta da frente. Fechada.

Dei a volta na casa para entrar pela porta de trás.

Passei rapidamente pelo janelão da cozinha, mas não a ponto de deixar de perceber que mamãe conversava animadamente com Seir. Estavam muito empolgadas.

Ainda as vi através de outro janelão, desta vez, o da área de serviço, contígua à cozinha.

Bati à porta.

— Toc, toc?

Nada.

Lá dentro, a conversa seguia animada.

Bati novamente.

— Toc, toc?

Empolgadas na conversa estavam, empolgadas continuaram.

Aí dei uma terceira batida:

— TOC TOOOOC?

Silêncio.

Silêncio na cozinha.

Silêncio também à porta.

— Você ouviu algo?

— Não. Deve ter sido um gato.

E foi aí que ‘o gato’ entrou na história. Porque foi nesse momento que aconteceu o pulo do gato, se é que vocês me entendem.

Havia um rodo na pequena área coberta, para onde a porta abria.

O rodo ‘caiu’ batendo na porta de ferro, fazendo um barulho maior. (sim, você entendeu correto: não foi exatamente uma obra do acaso).

Lá dentro alguém perguntou:

— Ouviu?

— Ouvi. Deve ser um gato ou o cachorro que vive rondando por aqui.

— Peraí que vou olhar.

Essa frase chegou em mim com uma força que eu não sei explicar.

Era como se o cosmos dissesse:

"Vai, que é agora."

Era noite.

A luz da cozinha estava acesa. Luz forte.

A área de serviço estava apagada e a luz que iluminava o quintal ainda não havia sido acesa. Fora da casa, o breu.

Minha mãe foi até a janela olhar o que estava acontecendo.

Eu já tinha saído da porta.

Estava agachado, embaixo da janela.

E fui subindo devagar.

Bem devagar.

Até dar com os olhos dela encostados na tela.

— UUUUUUI! — Ela gritou e deu um pulo para trás.

Depois percebeu que era eu.

E caiu na risada.

Eu também ri muito.

Só sei que foi assim que Dona Laó pagou a conta dela. Mas pagou com a moeda que ela mesma deu a tantos, além de uma boa gargalhada.

Hoje, ao me lembrar dessa história, percebo uma coisa. Eu não saí do escritório pensando: "Hoje minha mãe vai receber o dela." Não. Não houve plano. Nem carma. Na verdade, foi o Laó que existia em mim e se manifestou mais forte do que eu.

"Sim, esse meu lado brincalhão, esse gosto por transformar uma situação comum em uma pequena cena, eu herdei dela. A gente passa a vida fazendo coisas como nossos pais. Às vezes repetimos gestos que criticamos. Às vezes percebemos, inesperadamente, que herdamos aquilo que mais admiramos. E, nesse ciclo da vida, carregamos conosco um tanto deles em nós."