terça-feira, 28 de julho de 2026

A música que os noivos não pediram

 


Certa vez mamãe foi convidada para ir a uma cerimônia de casamento em uma igreja. Era uma igrejinha bem simples. Na verdade, preciso esclarecer: ela foi convidada por uma convidada. Sim, cidade de interior tem dessas coisas. Daí, para não ir só, mamãe resolveu me levar junto. E lá fomos nós para o casamento de uma moça que eu nunca tinha visto nem mais gorda nem mais magra na minha frente. Era gente do sítio. Gente simples, mas calorosa.

Chegamos à igreja. Era um sábado à tardinha.

A noiva não havia chegado ainda. Aliás, acho que o casamento nem havia começado.

Não sei como isso foi acontecer, só sei que mamãe ficou sabendo que não haveria uma música especial no casamento. Um casamento em uma igrejinha simples, no interior de Pernambuco, sem marcha, sem música, sem pompa nem circunstância.

- como assim, não vai ter música?

- [....]

- mas, mas, mas... bom, eu sei muitas músicas de casamento.

- [....]

- ah, sim, claro que posso! é sempre um privilégio cantar em um casamento. e quem já viu um casamento sem música, não é mesmo?

- [....]

- acho que antes de trocarem as alianças. você conhece aquele hino "Duas Vidas, Senhor?"

- [....]

- Ah, é um hino lindo que pede para Deus abençoar os noivos.

- [....]

- pronto!

E eu, só de butuca. Bom, entrou o oficiante, entrou o noivo, entraram os padrinhos, entrou a noiva ao som da marcha nupcial tocada numa radiola arrumada por lá (acho até que teve dedo de Lalau nisso).

A cerimônia seguiu: boas-vindas, propósito, isso e aquilo, mensagem aos noivos e chegou a troca das alianças.

- Teremos uma música especial com a irmã Laodice, esposa do pastor da Igreja Presbiteriana daqui de Lajedo. 

Silêncio na igreja.

Lá se foi mamãe lá pra frente, temperou a garganta e começou:

- 🎵Duas vidas, Senhor, se unem num só ser. Duas almas e dois (voz embargada) nobres corações.🎶🥹
 (Pausa)
 Tempera a garganta.
(Pausa longa).
- 🎵Pelo amor e afeição... (voz embargadíssima)🎶🥹

Eu aflito no banco

A congregação em expectativa. Quase ninguém respirava.

De repente, ....

- 🎶Mútua aqui viveeee 😭😭😭😭😭

Eu quis morrer ali.

Nem lembro como terminou essa história.

(risos)

Mamãe, que não era nem convidada, entra de penetra numa cerimônia de casamento, chama os holofotes pra si e, LUZES, CÂMERA, AÇÃO... 😭😭😭😭😭😭

(risos)

Depois ela me falou que havia se emocionado com os noivos.

mds.

Ainda hoje não sei como acabou essa história.


Ideias organizadas com suporte de IA e rigorosamente revisadas por mim. Conteúdo e voz autoral estritamente meus.

O Cálculo errado



Dessa vez, eu sou o mero contador da história que me relatou meu irmão Luís Henrique, a quem chamamos carinhosamente de Lula.

Pois bem, essa presepada de Dona Laó, quem me contou foi Lula.

Na verdade, na verdade, a história não foi exatamente com Lalau, mas com o Laó que existe nele e que se manifestou ao ouvir passos aproximando-se de casa. 

😂😂😂😂😂

Nossa casa, no Recife, era vizinha da casa de tia Isa, irmã de mamãe. Na realidade, havia a casa de um outro vizinho entre elas, mas o fato é que o trânsito entre as casas das irmãs era constante e sem semáforo.

Mamãe havia saído de casa. Ido à casa de tia Isa, talvez? Não posso afirmar. Pelo menos, não agora.

Lula estava em casa quando ouviu o ferrolho do portão do muro se abrindo (deitado no sofá? isso ele não me disse, mas é bom pensarmos assim. O conto é meu e eu coloco Lula deitado no sofá, espero que me compreenda). Mas o barulho realmente existiu e foi uma espécie de gatilho para as muitas lembranças dos muitos sustos que mamãe costumava nos dar, em suas brincadeiras de se esconder pela casa. 

Lula, então, correu para trás da porta. Havia uma passarela de uns dez metros entre o portão e a grade, que protegia o terraço da casa. A porta da casa, atrás da qual ele havia se escondido ao ouvir o ferrolho, dava para o terraço.

Lula ouviu os passos na passarela.

Lula ouviu o trinco no portão da grade.

Lula ouviu o portão da grade se abrir.

Lula ouviu os passos se aproximando da porta.

Lula calculou bem calculado.

Esperou o instante exato,

Então...

Deu um pulo pra frente da porta e gritou, com as mãos pra cima:

- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

[...]

- "Ai, menino, que susto!", exclamou tia Isa, trêmula. 

Lula, sem graça, se desculpou:

— Pensei que era mamãe, tia...

Tia Isa era assim, um tanto sisuda, sabe? Dessa vez não rolou gargalhada. Só mesmo a minha, quando fiquei sabendo da história.

😂😂😂😂😂



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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Quando o cosmos resolve zerar uma conta.


Se há uma coisa certa nessa vida é que o cosmos não deixa ninguém dever nada. Há, inclusive, um ditado que corre à boca nem sempre miúda, que afirma peremptoriamente: “aqui se faz, aqui se paga”.

Mamãe me contou várias de suas peripécias. Sempre bem-humorada, com o coração leve, ela tinha umas tiradas que apareciam do nada e, mesmo sem haver planejado aquilo, ela se valia da oportunidade para pegar peças nas pessoas. Nada ofensivo nem grosseiro. Ao contrário, tudo envolvido em muita risada e diversão. Qualquer hora dessas, escrevo uma ou umas dessas histórias dos seus [mal]feitos.

Certa feita, eu morava em uma chácara. Era um lugar lindo, com muito verde, casa espaçosa com o quintal dando para a mata fechada. As janelas, como se haveria de esperar para casas de chácaras, eram teladas. Mamãe, amante da natureza como ninguém mais, amou aquele lugar. Veio passar um tempinho conosco para matar a saudade do filho que morava mais distante de todos. Não sei se uma semana, um mês ou dois. Foi pouco tempo. Poderia ter ficado mais.

Bom, mas o fato é que naquela noitinha, ao retornar para casa, percebi que não havia levado comigo as chaves. Chequei a porta da frente. Fechada.

Dei a volta na casa para entrar pela porta de trás.

Passei rapidamente pelo janelão da cozinha, mas não a ponto de deixar de perceber que mamãe conversava animadamente com Seir. Estavam muito empolgadas.

Ainda as vi através de outro janelão, desta vez, o da área de serviço, contígua à cozinha.

Bati à porta.

— Toc, toc?

Nada.

Lá dentro, a conversa seguia animada.

Bati novamente.

— Toc, toc?

Empolgadas na conversa estavam, empolgadas continuaram.

Aí dei uma terceira batida:

— TOC TOOOOC?

Silêncio.

Silêncio na cozinha.

Silêncio também à porta.

— Você ouviu algo?

— Não. Deve ter sido um gato.

E foi aí que ‘o gato’ entrou na história. Porque foi nesse momento que aconteceu o pulo do gato, se é que vocês me entendem.

Havia um rodo na pequena área coberta, para onde a porta abria.

O rodo ‘caiu’ batendo na porta de ferro, fazendo um barulho maior. (sim, você entendeu correto: não foi exatamente uma obra do acaso).

Lá dentro alguém perguntou:

— Ouviu?

— Ouvi. Deve ser um gato ou o cachorro que vive rondando por aqui.

— Peraí que vou olhar.

Essa frase chegou em mim com uma força que eu não sei explicar.

Era como se o cosmos dissesse:

"Vai, que é agora."

Era noite.

A luz da cozinha estava acesa. Luz forte.

A área de serviço estava apagada e a luz que iluminava o quintal ainda não havia sido acesa. Fora da casa, o breu.

Minha mãe foi até a janela olhar o que estava acontecendo.

Eu já tinha saído da porta.

Estava agachado, embaixo da janela.

E fui subindo devagar.

Bem devagar.

Até dar com os olhos dela encostados na tela.

— UUUUUUI! — Ela gritou e deu um pulo para trás.

Depois percebeu que era eu.

E caiu na risada.

Eu também ri muito.

Só sei que foi assim que Dona Laó pagou a conta dela. Mas pagou com a moeda que ela mesma deu a tantos, além de uma boa gargalhada.

Hoje, ao me lembrar dessa história, percebo uma coisa. Eu não saí do escritório pensando: "Hoje minha mãe vai receber o dela." Não. Não houve plano. Nem carma. Na verdade, foi o Laó que existia em mim e se manifestou mais forte do que eu.

Sim, esse meu lado brincalhão, esse gosto por transformar uma situação comum em uma pequena cena, eu herdei dela. A gente passa a vida fazendo coisas como nossos pais. Às vezes repetimos gestos que criticamos. Às vezes percebemos, inesperadamente, que herdamos aquilo que mais admiramos. E, nesse ciclo da vida, carregamos conosco um tanto deles em nós.


Ideias organizadas com suporte de IA e rigorosamente revisadas por mim. Conteúdo e voz autoral estritamente meus.