sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Irmã Magdaleine volta mudada

A irmã Magdaleine era uma freirinha jovem, bonita e muito sociável. Estava havia cinco anos em clausura, e aquelas eram suas primeiras férias.

Passou um mês com a família, num interior qualquer. Durante esse tempo, encontrou algumas amigas de infância, que não se cansavam de lamentar:

— Magdaleine, minha filha... uma moça tão bonita, tão nova! Como foi que você inventou de ser freira?

Ela sorria, desconversava e seguia sua vida.

Chegado o dia de voltar ao convento, porém, descobriu um pequeno problema: estava sem dinheiro para a passagem.

Tudo o que tinha, naturalmente, havia sido doado aos pobres.

Com aquelas malas convencionais de freirinha em férias — pesadas como se tivessem sido feitas para testar a sua vocação — foi para a estrada pedir carona.

Depois de algum tempo, parou uma Ferrari.

A porta automática se abriu.

Ao volante, uma loira lindíssima sorriu para a irmã:

— Entre, irmã. Para onde a senhora vai? Posso fazer um pequeno desvio e levá-la.

— Vou para o convento das Irmãs Carmelianas, na cidade tal.

— Ah! Nem vou precisar desviar. Fica justamente na metade do caminho até minha casa.

— Que bênção! Muito obrigada.

A irmã acomodou as malas e entrou.

A loira arrancou.

Depois de alguns minutos de conversa, a irmã Magdaleine, ainda maravilhada com o carro, comentou:

— Que carro lindo!

A loira sorriu:

— Irmã, está vendo esse carro maravilhoso?

— Sim. Um presente de Deus!

— Mais ou menos, irmã.

A irmã franziu discretamente a testa.

— Tive um caso com um político casado. Ele, para eu não contar nada a ninguém, comprou essa Ferrari para mim.

A irmã Magdaleine ficou séria.

A loira continuou:

— Na verdade, irmã, eu estava mesmo precisando me confessar. Estou com a consciência muito pesada.

A irmã não fez caras e bocas. Apenas respirou fundo e, com aquele ar de reprovação que uma freira experiente consegue imprimir numa frase perfeitamente cordial, respondeu:

— Bem... todos os pecados são perdoados, minha filha.

Mas pensou que deveria ser cautelosa. Afinal, estava recebendo uma carona.

Numa Ferrari.

Então não quis ser muito dura.

Continuaram viagem.

Mais adiante, a irmã reparou no relógio que a loira usava.

— Que relógio bonito!

— É um Rolex, de ouro.

— Minha Santa Edwirges! Deve ter lhe custado uma fortuna!

— Que nada, irmã...

A loira sorriu:

— Foi presente de outro homem casado com quem saí algumas vezes.

[Pensamento da irmã Magdaleine: “OUTRO???!!!”]

Mas, em voz alta, apenas perguntou:

— Mas você se arrependeu, não foi?

— Claro, irmã.

A conversa prosseguiu.

Até que a irmã Magdaleine olhou para as mãos da motorista.

Pareciam uma joalheria.

Uma mão cheia de anéis: uma esmeralda enorme, uma meia-aliança de brilhantes, um solitário e mais algumas pedras que a irmã nem ousou identificar.

[Pensamento da irmã Magdaleine: “Meu Deus... será que é o que estou pensando?”]

Ela tentou resistir.

Resistiu por alguns quilômetros.

Mas, finalmente, venceu-a o pecado da curiosidade.

— Que anel lindo esse verde! É da sua formatura?

A loira olhou para a própria mão.

— Ah, este? Foi presente de um homem casado.

E, como se estivesse fazendo o inventário de uma pequena joalheria:

— Esta esmeralda foi presente do meu primeiro namorado.

— A meia-aliança de brilhantes, foi do primo dele, que saía comigo.

— O solitário, do irmão.

— E esse outro ali, também. Ele também gostava de mim.

A irmã Magdaleine foi encolhendo no banco.

Àquela altura, já não sabia se estava viajando numa Ferrari ou dentro de uma parábola contemporânea sobre os perigos da vida mundana.

Quando deram por si, estavam diante do convento.

A loira estacionou.

— Irmã Magdaleine, muito obrigada pela companhia. Foi uma bênção encontrá-la no caminho. Vou para casa muito mais aliviada.

A irmã abriu a porta.

— Eh, eh... Deus a abençoe, filha. E tome cuidado com essa forma de ser presenteada, viu?

A loira sorriu:

— Ah, irmã... vou parar. Prometo.

Magdaleine desceu.

Pegou suas malas.

E entrou no convento.

Mas alguma coisa havia mudado.

Entrou soturna.

Não deu bom-dia, boa-tarde nem boa-noite a ninguém.

Se passou por alguma irmã pelo caminho, não viu.

Foi direto para seu claustro.

Não jantou.

As outras freiras estranharam profundamente.

Logo a irmã Magdaleine, a mais sociável de todas!

Mas ela permaneceu recolhida.

Circunspecta.

De madrugada...

— Toc, toc?

Silêncio.

Novamente:

— Toc, toc?

Novo silêncio.

Mais uma vez:

— Toc, toc?

Finalmente, de dentro do claustro:

— Mag, sou eu, o Padre Clemenseau... Pode abrir.

Sem mover um dedo, estirada na cama como estava, a irmã Magdaleine respondeu, seca:

VÁ SE LASCAR! VOCÊ E SUAS BALINHAS DE HORTELÃ!!!



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