A irmã Magdaleine era uma freirinha jovem, bonita e muito sociável. Estava havia cinco anos em clausura, e aquelas eram suas primeiras férias.
Passou um mês
com a família, num interior qualquer. Durante esse tempo, encontrou algumas
amigas de infância, que não se cansavam de lamentar:
— Magdaleine,
minha filha... uma moça tão bonita, tão nova! Como foi que você inventou de ser
freira?
Ela sorria,
desconversava e seguia sua vida.
Chegado o dia
de voltar ao convento, porém, descobriu um pequeno problema: estava sem
dinheiro para a passagem.
Tudo o que
tinha, naturalmente, havia sido doado aos pobres.
Com aquelas
malas convencionais de freirinha em férias — pesadas como se tivessem sido
feitas para testar a sua vocação — foi para a estrada pedir carona.
Depois de algum
tempo, parou uma Ferrari.
A porta
automática se abriu.
Ao volante, uma
loira lindíssima sorriu para a irmã:
— Entre, irmã.
Para onde a senhora vai? Posso fazer um pequeno desvio e levá-la.
— Vou para o
convento das Irmãs Carmelianas, na cidade tal.
— Ah! Nem vou
precisar desviar. Fica justamente na metade do caminho até minha casa.
— Que bênção!
Muito obrigada.
A irmã acomodou
as malas e entrou.
A loira
arrancou.
Depois de
alguns minutos de conversa, a irmã Magdaleine, ainda maravilhada com o carro,
comentou:
— Que carro
lindo!
A loira sorriu:
— Irmã, está
vendo esse carro maravilhoso?
— Sim. Um
presente de Deus!
— Mais ou
menos, irmã.
A irmã franziu
discretamente a testa.
— Tive um caso
com um político casado. Ele, para eu não contar nada a ninguém, comprou essa
Ferrari para mim.
A irmã
Magdaleine ficou séria.
A loira
continuou:
— Na verdade,
irmã, eu estava mesmo precisando me confessar. Estou com a consciência muito
pesada.
A irmã não fez
caras e bocas. Apenas respirou fundo e, com aquele ar de reprovação que uma
freira experiente consegue imprimir numa frase perfeitamente cordial,
respondeu:
— Bem... todos
os pecados são perdoados, minha filha.
Mas pensou que
deveria ser cautelosa. Afinal, estava recebendo uma carona.
Então não quis
ser muito dura.
Continuaram
viagem.
Mais adiante, a
irmã reparou no relógio que a loira usava.
— Que relógio bonito!
— É um Rolex,
de ouro.
— Minha Santa
Edwirges! Deve ter lhe custado uma fortuna!
— Que nada,
irmã...
A loira sorriu:
— Foi presente
de outro homem casado com quem saí algumas vezes.
[Pensamento da
irmã Magdaleine: “OUTRO???!!!”]
Mas, em voz
alta, apenas perguntou:
— Mas você se
arrependeu, não foi?
— Claro, irmã.
A conversa
prosseguiu.
Até que a irmã
Magdaleine olhou para as mãos da motorista.
Pareciam uma
joalheria.
Uma mão cheia
de anéis: uma esmeralda enorme, uma meia-aliança de brilhantes, um solitário e
mais algumas pedras que a irmã nem ousou identificar.
[Pensamento da
irmã Magdaleine: “Meu Deus... será que é o que estou pensando?”]
Ela tentou
resistir.
Resistiu por
alguns quilômetros.
Mas,
finalmente, venceu-a o pecado da curiosidade.
— Que anel
lindo esse verde! É da sua formatura?
A loira olhou
para a própria mão.
— Ah, este? Foi
presente de um homem casado.
E, como se
estivesse fazendo o inventário de uma pequena joalheria:
— Esta
esmeralda foi presente do meu primeiro namorado.
— A
meia-aliança de brilhantes, foi do primo dele, que saía comigo.
— O solitário, do
irmão.
— E esse outro
ali, também. Ele também gostava de mim.
A irmã
Magdaleine foi encolhendo no banco.
Àquela altura,
já não sabia se estava viajando numa Ferrari ou dentro de uma parábola
contemporânea sobre os perigos da vida mundana.
Quando deram
por si, estavam diante do convento.
A loira
estacionou.
— Irmã
Magdaleine, muito obrigada pela companhia. Foi uma bênção encontrá-la no
caminho. Vou para casa muito mais aliviada.
A irmã abriu a
porta.
— Eh, eh...
Deus a abençoe, filha. E tome cuidado com essa forma de ser presenteada, viu?
A loira sorriu:
— Ah, irmã...
vou parar. Prometo.
Magdaleine
desceu.
Pegou suas
malas.
E entrou no
convento.
Mas alguma
coisa havia mudado.
Entrou soturna.
Não deu
bom-dia, boa-tarde nem boa-noite a ninguém.
Se passou por
alguma irmã pelo caminho, não viu.
Foi direto para
seu claustro.
Não jantou.
As outras
freiras estranharam profundamente.
Logo a irmã
Magdaleine, a mais sociável de todas!
Mas ela
permaneceu recolhida.
Circunspecta.
De madrugada...
— Toc, toc?
Silêncio.
Novamente:
— Toc, toc?
Novo silêncio.
Mais uma vez:
— Toc, toc?
Finalmente, de
dentro do claustro:
— Mag, sou eu, o
Padre Clemenseau... Pode abrir.
Sem mover um
dedo, estirada na cama como estava, a irmã Magdaleine respondeu, seca:
— VÁ SE
LASCAR! VOCÊ E SUAS BALINHAS DE HORTELÃ!!!