Se há uma coisa certa nessa vida é que o cosmos não deixa ninguém dever nada. Há, inclusive, um ditado que corre à boca nem sempre miúda, que afirma peremptoriamente: “aqui se faz, aqui se paga”.
Mamãe
me contou várias de suas peripécias. Sempre bem-humorada, com o coração leve,
ela tinha umas tiradas que apareciam do nada e, mesmo sem haver planejado
aquilo, ela se valia da oportunidade para pegar peças nas pessoas. Nada
ofensivo nem grosseiro. Ao contrário, tudo envolvido em muita risada e diversão.
Qualquer hora dessas, escrevo uma ou umas dessas histórias dos seus
[mal]feitos.
Certa
feita, eu morava em uma chácara. Era um lugar lindo, com muito verde, casa espaçosa
com o quintal dando para a mata fechada. As janelas, como se haveria de esperar
para casas de chácaras, eram teladas. Mamãe, amante da natureza como ninguém
mais, amou aquele lugar. Veio passar um tempinho conosco para matar a saudade
do filho que morava mais distante de todos. Não sei se uma semana, um mês ou
dois. Foi pouco tempo. Poderia ter ficado mais.
Bom,
mas o fato é que naquela noitinha, ao retornar para casa, percebi que não havia
levado comigo as chaves. Chequei a porta da frente. Fechada.
Dei
a volta na casa para entrar pela porta de trás.
Passei
rapidamente pelo janelão da cozinha, mas não a ponto de deixar de perceber que mamãe
conversava animadamente com Seir. Estavam muito empolgadas.
Ainda
as vi através de outro janelão, desta vez, o da área de serviço, contígua à
cozinha.
Bati
à porta.
— Toc, toc?
Nada.
Lá dentro, a conversa
seguia animada.
Bati novamente.
— Toc, toc?
Empolgadas na conversa
estavam, empolgadas continuaram.
Aí dei uma terceira
batida:
— TOC TOOOOC?
Silêncio.
Silêncio na cozinha.
Silêncio também à
porta.
— Você ouviu algo?
— Não. Deve ter sido um
gato.
E foi aí que ‘o gato’
entrou na história. Porque foi nesse momento que aconteceu o pulo do gato, se é
que vocês me entendem.
Havia um rodo na
pequena área coberta, para onde a porta abria.
O rodo ‘caiu’ batendo
na porta de ferro, fazendo um barulho maior. (sim, você entendeu correto: não foi
exatamente uma obra do acaso).
Lá dentro alguém
perguntou:
— Ouviu?
— Ouvi. Deve ser um
gato ou o cachorro que vive rondando por aqui.
— Peraí que vou olhar.
Essa frase chegou em
mim com uma força que eu não sei explicar.
Era como se o cosmos
dissesse:
"Vai, que é
agora."
Era noite.
A luz da cozinha estava
acesa. Luz forte.
A área de serviço
estava apagada e a luz que iluminava o quintal ainda não havia sido acesa. Fora
da casa, o breu.
Minha mãe foi até a
janela olhar o que estava acontecendo.
Eu já tinha saído da
porta.
Estava agachado,
embaixo da janela.
E fui subindo devagar.
Bem devagar.
Até dar com os olhos
dela encostados na tela.
— UUUUUUI! — Ela gritou
e deu um pulo para trás.
Depois percebeu que era
eu.
E caiu na risada.
Eu também ri muito.
Só sei que foi assim
que Dona Laó pagou a conta dela. Mas pagou com a moeda que ela mesma deu a
tantos, além de uma boa gargalhada.
Hoje, ao
me lembrar dessa história, percebo uma coisa. Eu não saí do escritório
pensando: "Hoje minha mãe vai receber o dela." Não. Não houve plano.
Nem carma. Na verdade, foi o Laó que existia em mim e se manifestou mais forte
do que eu.
"Sim,
esse meu lado brincalhão, esse gosto por transformar uma situação comum em uma
pequena cena, eu herdei dela. A gente passa a vida fazendo coisas como nossos
pais. Às vezes repetimos gestos que criticamos. Às vezes percebemos,
inesperadamente, que herdamos aquilo que mais admiramos. E, nesse ciclo da
vida, carregamos conosco um tanto deles em nós."
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