Lalau tinha oito anos.
Era uma menina franzina, alegre, esperta, conversadeira, animada e simpática. E, sobretudo, era crédula. Confiava nas pessoas.
Um dia, estava com uma inflamação na garganta — laringite, talvez. Coisa de criança. Levaram-na ao médico. Não sei quem a levou; ela nunca me contou.
Era a década de 1930, no interior de Pernambuco. Naquele tempo havia uma verdadeira febre de se operar as amígdalas das crianças.
Lalau era a primeira paciente do dia.
Foi amarrada a uma cadeira. A enfermeira segurou-lhe a mão. Ela não achou aquilo estranho. Por que acharia? Era uma menina que confiava nas pessoas.
O médico chegou.
— Abra a boca, Laó.
Ela abriu.
ZAZ!
Num golpe rápido e certeiro, o médico enfiou um instrumento estranho — algo que, muitos anos depois, Lalau descreveu como parecido com aquelas antigas máquinas de cortar cabelo de homem — e...
CLACK!
Decepou uma das amígdalas.
Doeu.
Não foi a maior dor da vida dela, mas doeu. E, sobretudo, ela se sentiu traída.
Não tinha ido ali para aquilo.
O médico olhou para o que havia acabado de arrancar e comentou:
— Mas que droga! Nunca arranquei uma amígdala tão pequena.
Havia ainda a outra.
Lalau, franzina, mas não burra, entendeu perfeitamente o que deveria fazer.
Fechar a boca.
Os olhos, certamente, estavam marejados.
— Abra a boca, Laó.
Ela, de boca cerrada, balançava a cabeça que não.
— Precisa operar a outra amígdala.
A cabeça continuava dizendo que não.
— Abra a boca, Laó.
Não haveria boca aberta.
Lá fora, outras crianças aguardavam sua vez de serem operadas. O médico começava a ficar impaciente. A enfermeira tentava fazê-la abrir a boca.
Até que, de repente, a cena mudou.
O médico ficou terno e bom. Suspendeu a insistência e, resignado, perguntou com voz cordata:
— Está bem. Você não quer que a outra amígdala seja operada, não é?
O meneio da cabeça confirmou aquele jamais infantil.
O médico então sorriu, ou pelo menos foi essa a impressão que passou.
— Então, antes de você ir embora, preciso só abaixar sua língua, está bem?
Diante de uma explicação tão doce e benfazeja, mamãe abriu a boca.
ZAZ!
CLACK!
E foi assim que Lalau voltou para casa sem as amígdalas.
Sem anestesia.
Nem mesmo uma pastilha de menta para aliviar a dor ou o susto.
Anos depois, quando mamãe me contou essa história, eu fiquei boquiaberto e penalizado.
Ela, porém, contava tudo com a melhor das vozes, como se aquilo tivesse acontecido do outro lado do planeta, com outra menina qualquer.
Mas não.
Era ela.
Uma menina de oito anos, franzina, alegre, crédula e esperta, que naquele dia descobriu uma coisa que ainda não sabia:
o mundo podia ser mau.
E talvez tenha sido esse o seu primeiro choque de realidade.