segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O primeiro choque de realidade

Lalau tinha oito anos.

Era uma menina franzina, alegre, esperta, conversadeira, animada e simpática. E, sobretudo, era crédula. Confiava nas pessoas.

Um dia, estava com uma inflamação na garganta — laringite, talvez. Coisa de criança. Levaram-na ao médico. Não sei quem a levou; ela nunca me contou.

Era a década de 1930, no interior de Pernambuco. Naquele tempo havia uma verdadeira febre de se operar as amígdalas das crianças.

Lalau era a primeira paciente do dia.

Foi amarrada a uma cadeira. A enfermeira segurou-lhe a mão. Ela não achou aquilo estranho. Por que acharia? Era uma menina que confiava nas pessoas.

O médico chegou.

— Abra a boca, Laó.

Ela abriu.

ZAZ!

Num golpe rápido e certeiro, o médico enfiou um instrumento estranho — algo que, muitos anos depois, Lalau descreveu como parecido com aquelas antigas máquinas de cortar cabelo de homem — e...

CLACK!

Decepou uma das amígdalas.

Doeu.

Não foi a maior dor da vida dela, mas doeu. E, sobretudo, ela se sentiu traída.

Não tinha ido ali para aquilo.

O médico olhou para o que havia acabado de arrancar e comentou:

— Mas que droga! Nunca arranquei uma amígdala tão pequena.

Havia ainda a outra.

Lalau, franzina, mas não burra, entendeu perfeitamente o que deveria fazer.

Fechar a boca.

Os olhos, certamente, estavam marejados.

— Abra a boca, Laó.

Ela, de boca cerrada, balançava a cabeça que não.

— Precisa operar a outra amígdala.

A cabeça continuava dizendo que não.

— Abra a boca, Laó.

Não haveria boca aberta.

Lá fora, outras crianças aguardavam sua vez de serem operadas. O médico começava a ficar impaciente. A enfermeira tentava fazê-la abrir a boca.

Até que, de repente, a cena mudou.

O médico ficou terno e bom. Suspendeu a insistência e, resignado, perguntou com voz cordata:

— Está bem. Você não quer que a outra amígdala seja operada, não é?

O meneio da cabeça confirmou aquele jamais infantil.

O médico então sorriu, ou pelo menos foi essa a impressão que passou.

— Então, antes de você ir embora, preciso só abaixar sua língua, está bem?

Diante de uma explicação tão doce e benfazeja, mamãe abriu a boca.

ZAZ!


CLACK!

E foi assim que Lalau voltou para casa sem as amígdalas.

Sem anestesia.

Nem mesmo uma pastilha de menta para aliviar a dor ou o susto.

Anos depois, quando mamãe me contou essa história, eu fiquei boquiaberto e penalizado.

Ela, porém, contava tudo com a melhor das vozes, como se aquilo tivesse acontecido do outro lado do planeta, com outra menina qualquer.

Mas não.

Era ela.

Uma menina de oito anos, franzina, alegre, crédula e esperta, que naquele dia descobriu uma coisa que ainda não sabia:

o mundo podia ser mau.

E talvez tenha sido esse o seu primeiro choque de realidade.